Manifestações em quatro estados colocam Bolívia em alerta

Quatro dos nove departamentos (Estados) bolivianos - Santa Cruz, Tarija, Beni e Pando - realizam nesta sexta-feira grandes manifestações para exigir, por meio de "assembléias populares", autonomia em relação ao governo central. Santa Cruz, a mais próspera região do país, tem as propostas mais radicais, incluindo até mesmo a de separação do restante do país, e a situação mais tensa.Os líderes do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz e o governador do departamento, Rubén Costas, esperam levar ao centro de Santa Cruz de La Sierra um milhão de pessoas dispostas a erguer os braços para aprovar a autonomia. Entre os encarregados de garantir a segurança do encontro estão grupos como a Juventude Crucenha - organização qualificada por entidades indígenas como uma milícia paramilitar de inspiração fascista -, abertamente partidária da secessão.O Exército boliviano - posto em alerta por causa das manifestações nas quatro regiões - emitiu nesta quinta-feira um comunicado no qual informou o roubo de dez fuzis e uma pistola, de uso exclusivo das Forças Armadas, de uma base militar em Cobija, no norte da Bolívia, perto da fronteira com o Brasil. De acordo com o comunicado, "relatório de inteligência militar indicam que as armas foram subtraídas da base com o propósito de serem utilizadas nas manifestações"."O uso desse armamento visa acusar posteriormente as Forças Armadas de utilizar suas armas exclusivas contra civis, especialmente na concentração que terá lugar em Santa Cruz", denuncia a nota do Exército. Na véspera, Alex Contreras, porta-voz do presidente boliviano, Evo Morales, acusou a oposição e os movimentos cívicos autonomistas de buscarem "dois, três ou quatro mortos, para depois culparem o governo". Por seu lado, o senador Paulo Bravo, do principal partido da oposição, o Poder Democrático e Social (Podemos), já antecipou que "se houver uma massacre de Natal, a culpa será toda do governo". Ao mesmo tempo, grupos indígenas e camponeses ligados ao partido Movimento ao Socialismo (MAS), de Evo, prometem realizar uma "contra-assembléia" em uma outra praça de Santa Cruz. Segundo um dirigente local do MAS, Hernán Montaño, a possibilidade de um cerco à cidade não está descartada.Num prenúncio do que podem se converter as manifestações, grupos de partidários e opositores do governo se enfrentaram hoje em dois incidentes violentos. Em Santa Cruz, partidários das duas partes trocaram socos e pontapés numa praça da periferia da cidade. Em Cochabamba, região central do país, funcionários públicos do departamento governado pelo opositor Manfred Reyes Villa entraram em choque com simpatizantes do MAS.Sob o argumento de que precisavam organizar a manifestação na sexta-feira, os dirigentes das entidades cívicas de Santa Cruz encerraram nesta quinta a greve de fome que mantinham havia dez dias. "É conveniente que recuperemos as forças para assumir outra etapa da luta que é a organização da assembléia e a luta que virá depois, pois esse é um processo que levará algum tempo e no qual seguiremos com as pressões", declarou o presidente do Comitê Pró-Santa Cruz, Germán Antelo. "Possivelmente teremos de sair de novo às ruas. Os campos de batalha serão vários e nós, sem dúvida estaremos presentes."Em La Paz, o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, afirmou que "prevalece um ambiente pré-subversivo em alguns setores do movimento autonomista que, em sua expressão mais radical proclamam a divisão e o separatismo". Na segunda-feira, Evo conclamou as Forças Armadas a evitar qualquer ameaça à integridade territorial do país.

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