EFE/CRISTIAN HERNANDEZ
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Marchas contra Maduro lotam ruas da Venezuela e deixam 3 mortos

Presidente venezuelano volta a convidar oposição para “diálogo pela paz institucional” e nomeia comitê para elaborar proposta; procuradora-geral promete receber denúncias de abusos e supressão do direito à livre manifestação cometidos pelo governo

O Estado de S. Paulo

19 Abril 2017 | 14h46
Atualizado 19 Abril 2017 | 23h26

CARACAS - Dezenas de milhares de pessoas foram nesta quarta-feira, 19, às ruas de Caracas e outras cidades da Venezuela para protestar contra o governo do presidente Nicolás Maduro. Em resposta, o chavismo organizou um ato em Caracas de apoio a Maduro, que, por sua vez, convidou a oposição ao diálogo. Um militar e dois manifestantes morreram nos protestos.

O líder chavista Diosdado Cabello informou na noite desta quarta-feira que um membro da Guarda Nacional Bolivariana tinha sido morto em San Antonio de los Altos, periferia de Caracas, e atribuiu a culpa à oposição.

Na capital, um jovem de 17 anos identificado como Carlos José Moreno levou um tiro e foi levado a um hospital, onde morreu durante uma cirurgia. “Ele estava em um ponto da concentração da oposição e recebeu um tiro disparado por um dos agentes motorizados que antes jogavam bombas de gás de pimenta”, disse o presidente do Hospital Clínicas Caracas, Amadeo Leiva. 

Em Táchira, perto da fronteira com a Colômbia, uma mulher de 24 anos morreu após ser baleada, informaram parentes e testemunhas. Ao menos 30 pessoas foram presas nesta quarta “por planos de causar violência nos protestos”.

 

Pouco depois dos primeiros relatos de confrontos durante as marchas, a procuradora-geral da Venezuela, Luísa Ortega, que nos últimos meses vem se distanciando da cúpula chavista, prometeu receber denúncias contra o governo de abusos contra o direito à livre manifestação. 

Em meio a críticas a líderes opositores como Henry Ramos Allup e o presidente da Assembleia Nacional, Julio Borges, Maduro voltou a convidar a oposição a dialogar pela paz institucional e nomeou uma comissão para preparar uma oferta. Em outras duas oportunidades, diálogos similares fracassaram. 

“Convido a oposição nas próximas horas a ouvir uma proposta que tenha a fazer-lhes”, disse Maduro. “Que depois não digam que não os escutei.”

A Guarda Nacional Bolivariana (GNB) dispersou, com bombas de gás lacrimogêneo e tiros de balas de borracha, dos manifestantes que tentavam chegar ao prédio da Defensoria Pública, no oeste da capital - área majoritariamente chavista. A GNB, no entanto, permitiu que os manifestantes ocupassem a autopista Francisco Fajardo, via expressa que é a principal ligação entre as duas zonas da cidade, raramente aberta a manifestações. 

Nas últimas semanas, a oposição, liderada pela coalizão Mesa de Unidade Democrática (MUD), organizou atos similares, que acabaram com ao menos cinco mortos. A série de protestos começou depois de o Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), alinhado ao chavismo, anular os poderes da Assembleia Nacional e decidir assumir as funções do Congresso. A Corte suspendeu a decisão, mas isso não impediu a oposição de convocar protestos denunciando um autogolpe chavista contra o Legislativo. 

A MUD exige a realização das eleições regionais, que deveriam ter sido organizadas em dezembro. Maduro diz que cabe à Justiça eleitoral convocar a votação. Além disso, os opositores querem autonomia para a Assembleia Nacional e a libertação de seus líderes presos pelo governo. 

Crise. A Venezuela vive desde 2013 uma grave crise econômica provocada pela escassez de divisas em moeda forte e agravada pela queda no preço do petróleo no mercado internacional. Para conter a falta de dólares, o governo restringiu a venda da divisa ao setor privado. Como a Venezuela importa a maior parte do que é necessário para produzir alimentos e bens de primeira necessidade, isso provocou escassez e inflação. 

Entre os manifestantes que estão nas ruas hoje, estão opositores de classe média e também de setores mais populares, descontentes com o chavismo. 

Nos últimos dois anos, a falta de dólares se agravou e a escassez, que antes afetava produtos da cesta básica e higiene, se espalhou para o serviço de saúde, que não conta com remédios e material para exames.

 

Repercussão. O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou nesta quarta que os EUA acompanham de perto e com preocupação a situação na Venezuela. “O governo Maduro não deixa que a voz da oposição seja ouvida”, disse Tillerson.

Em Miami, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, o uruguaio Luís Almagro, voltou a criticar o governo venezuelano. “A Venezuela está se tornando uma ditadura completa”, disse o diplomata. “O governo Maduro está negando direitos humanos básicos para a população e só se preocupa em manter o poder.” /AP, AFP e REUTERS 


 

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