Vincent Yu / AP
Vincent Yu / AP

Protestos em Hong Kong contra extradições para China terminam em confronto

Polícia usa gás lacrimogênio e balas de borracha para dispersar manifestantes que bloquearam principais avenidas da cidade

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 23h10
Atualizado 12 de junho de 2019 | 23h06

HONG KONG - Confrontos violentos irromperam nesta quarta-feira, 12, em Hong Kong quando a polícia tentou impedir que os manifestantes contrários a um projeto de lei que autorizaria as extradições à China continental invadissem o Parlamento. Os policiais usaram gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar a multidão, enquanto milhares de pessoas bloqueiam as principais vias da cidade em uma demonstração de força contra os planos do governo.

Os enfrentamentos começaram por volta das 15h (4h em Brasília), prazo limite estabelecido pelos manifestantes para que o governo abandonasse o polêmico projeto de lei. Horas antes, com o aumento da multidão nas ruas e as principais estradas bloqueadas, os representantes do Conselho Legislativo (Legco - o Parlamento de Hong Kong) anunciaram o adiamento da segunda votação da proposta. 

"Peço aos cidadãos que se concentram moderação, que se dispersem de forma pacífica e não desafiem a lei", pediu Matthew Cheung, secretário-chefe do governo, em um vídeo divulgado nas redes sociais.

Milhares de manifestantes ocuparam as principais avenidas da cidade, obstruindo o tráfego, em uma tática parecida com a adotada em 2014, durante o movimento "Occupy" - também conhecido como "Revolução dos Guarda-Chuvas" -, que exigia a eleição do chefe do Executivo por sufrágio universal e que bloqueou vias por mais de dois meses. Manifestantes usavam guarda-chuvas para se defender da polícia. 

Uma vez expirado o prazo anunciado pelos manifestantes, eles seguiram para a esplanada do LegCo em uma tentativa de entrar no edifício e atiraram objetos contra os policiais, como garrafas plásticas e até barras de metal. A polícia respondeu com spray de pimenta, gás lacrimogêneo e cassetetes contra os manifestantes, que usaram guarda-chuvas para se proteger. 

Escalada da tensão em protestos em Hong Kong

A ex-colônia britânica foi palco no domingo do maior protesto ocorrido desde sua transferência para a China em 1997. De acordo com os organizadores, mais de 1 milhão de pessoas foram às ruas pedir ao Executivo de Hong Kong que desista de seu projeto de lei. Na terça-feira, dezenas de empresas e estabelecimentos comerciais de Hong Kong anunciaram sua intenção - incomum na cidade - de fechar as portas nesta quarta para protestar.

Mas a escala do protesto não intimidou a chefe do Executivo local, Carrie Lam, que advertiu a oposição contra qualquer "ação radical". Ela reiterou que o LegCo analisaria, como previsto, este texto em segunda e terceira leitura. A segurança foi reforçada em torno do Parlamento.

"A única coisa responsável agora é que Carrie Lam retire este projeto malvado ou, pelo menos, que o coloque em uma gaveta para resolver a crise", afirmou o deputado democrata Fernando Cheung. "Se tentar aprová-lo a qualquer custo, se ordenar a repressão policial, temo que corra sangue."

Extradições para China assustam

O texto provocou críticas de países ocidentais, assim como o clamor de alguns em Hong Kong, que temem uma Justiça chinesa opaca e politizada e acreditam que a reforma prejudicará a imagem internacional e a atratividade do território semiautônomo.

Desde o acordo de 1984 entre Londres e Pequim, que selou sua retrocessão em 1997, Hong Kong desfruta de uma semiautonomia e liberdades que não existem na China continental. Em tese, a situação deve seguir até 2047.

Além disso, o estado de direito e o sistema judicial herdados do Reino Unido são um fator essencial do êxito econômico deste centro financeiro mundial. Mas, os opositores acusam a China de não cumprir o acordo e querer limitar as liberdades de Hong Kong antes do prazo estabelecido.

A ex-colônia britânica tem sido palco de intensa agitação política na última década em razão da preocupação com a crescente interferência de Pequim em seus assuntos internos, e com a sensação de que a retrocessão e o famoso princípio "Um país, dois sistemas" não são mais respeitados.

Greves

Os principais sindicatos de estudantes convocaram um boicote às aulas para que os alunos participem dos protestos. Mais de 1,6 mil funcionários de companhias aéreas assinaram um abaixo-assinado pedindo a seu sindicato que entre em greve.

Além disso, um sindicato de motoristas de ônibus convida seus membros a dirigirem muito lentamente nesta quarta para mostrar seu apoio aos manifestantes. Professores, enfermeiros e assistentes sociais também expressaram sua disposição em interromper o trabalho.

"Peço às escolas, pais, grupos, empresas e sindicatos, que, antes de convocarem esses atos radicais, perguntem sobre o bem que podem fazer à sociedade e aos jovens de Hong Kong", disse Carrie Lam.

O polêmico projeto de lei

O projeto de lei deve permitir extradições para todas as jurisdições com as quais não exista acordo bilateral, incluindo a China continental. A votação final do texto está prevista para 20 de junho. 

Segundo as autoridades, a proposta deve preencher um vácuo legal e fazer com que a cidade deixe de ser um refúgio para alguns criminosos. Elas garantem que há salvaguardas em relação aos direitos humanos e que não terá adversários políticos da China como alvo. Carrie afirma também que o texto só afetará os autores de crimes graves cabíveis de penas de mais de sete anos de prisão.

Mas, depois de anos de tensão política, muitos moradores de Hong Kong não acreditam mais nas promessas de seu Executivo, que está alinhado com Pequim, e desconfiam das intenções do governo chinês, especialmente sob a presidência de Xi Jinping.

A oposição ao projeto de lei une segmentos muito diversos da população de Hong Kong, incluindo a diocese católica local, que pediu a Carrie, uma católica fervorosa, que renuncie.

Nas eleições de 2016, 30 deputados pró-democracia foram eleitos para o Parlamento de 70 assentos. Com esse número, eles conseguiriam barrar projetos como o da extradição. Em 2016, Pequim conseguiu suspender seis deputados que não fizeram o juramento da maneira protocolar. Alguns eram veteranos da luta pela democracia em Hong Kong e outros integravam um novo movimento radical de independência.

Houve uma eleição legislativa em 2017 para substituir os suspensos, mas o lado pró-democracia não recuperou os deputados. Hoje, dos 70 assentos, 43 são pró-Pequim, 23 são pró-democracia e os outros 4 são independentes – o que permite a aprovação da lei proposta.

“Só metade dos 70 legisladores foi eleita diretamente, sob um sistema eleitoral desenhado para manter no poder os aliados do governo”, disse ao Estado Ma Ngok, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong. “O sistema eleitoral privilegia empresários e corporações, que tendem a ser favoráveis aos governos de Pequim e Hong Kong.”

Segundo ele, o embate entre defensores da democracia e governo pró-Pequim deve se intensificar. “Existe um descontentamento com as interferências da China e muitos, especialmente os mais jovens, enxergam a luta de agora como uma guerra pelos valores de Hong Kong”, diz Ngok.

Críticas

Por coincidência de calendário, a Justiça da Nova Zelândia se opôs, na terça, à extradição para a China de um homem procurado por homicídio, evocando o risco de ser torturado.

Os Estados Unidos manifestaram sua preocupação com o ambiente econômico em Hong Kong e com os americanos de passagem, ou instalados localmente, que estarão "sujeitos aos caprichos do sistema judiciário chinês". A China criticou os "comentários irresponsáveis e equivocados". / AFP, REUTERS e NYT, COM RODRIGO TURRER

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.