Manifestantes colocam fogo em tribunal no norte do Egito

Manifestantes atearam fogo a um tribunal em Alexandria, no norte do Egito, no segundo dia consecutivo de distúrbios no país, antes do segundo aniversário do levante popular que derrubou o regime do general Hosni Mubarak. Nesse tribunal estão para ser julgados seis altos funcionários da polícia acusados de responsabilidade pela morte de ativistas durante a rebelião contra Mubarak.

RENATO MARTINS, Agência Estado

20 de janeiro de 2013 | 20h21

De acordo com um oficial da polícia, jovens manifestantes atiraram pedras contra as forças policiais, que reagiram usando gás lacrimogêneo. Durante o tumulto, manifestantes atearam fogo a dois caminhões da própria polícia que estavam estacionados junto à sede do tribunal. Os confrontos aconteceram horas depois de o juiz Mohammed Hammad Abdel-Hadi anunciar que não vai mais presidir o julgamento.

A demora em julgar oficiais acusados de atrocidades causa frustração entre as famílias dos ativistas mortos nos combates de dois anos atrás. Entidades de defesa dos direitos humanos dizem haver no Egito uma "cultura de impunidade policial". A renúncia do juiz Abdel-Hadi implica que o julgamento dos oficiais terá de começar de novo.

O ex-chefe das forças de segurança em Alexandria, Mohammed Ibrahim, é um dos oficiais em julgamento; ele se aposentou depois da queda de Mubarak, enquanto os outros acusados ainda trabalham para o Ministério do Interior. No sábado, familiares de vítimas da repressão do regime anterior e outros manifestantes entraram em confronto com a polícia diante do mesmo tribunal, depois de o juiz Abdel-Hadi negar um pedido da promotoria para que testemunhas fossem chamadas a depor no julgamento.

Desde a deposição de Mubarak, em 11 de fevereiro de 2011, depois de 29 anos no poder, cerca de 100 oficiais da polícia egípcia foram levados a julgamento sob acusações de matar ou ferir participantes do levante. Todos foram absolvidos ou tiveram sentenças suspensas. Mubarak e o último ministro do Interior de seu regime foram condenados a penas de prisão perpétua por sua responsabilidade na repressão, mas terão direito a um novo julgamento.

No levante iniciado em 25 de janeiro de 2011 foram mortas cerca de 900 pessoas, das quais cerca de 300 em Alexandria.

No começo deste mês, uma comissão de investigação criada pelo presidente Mohammed Morsi, que havia assumido em junho como o primeiro presidente livremente eleito do Egito, apresentou um relatório de 700 páginas sobre as mortes de manifestantes ocorridas nos últimos dois anos. A comissão é formada por juízes, advogados, representantes do Ministério do Interior, do serviço de inteligência do governo e familiares das vítimas. Ela recomendou que um único órgão investigue as mortes, independentemente de os acusados serem civis, policiais ou militares.

Neste domingo, 17 organizações, entre elas o Partido Social Democrático do Egito, de oposição, exortaram Morsi a adotar as recomendações da comissão. Em comunicado à imprensa, essas organizações disseram que Morsi apenas repassou as recomendações para a Procuradoria, sem ter tomado nenhuma medida para implementá-las, e destacaram que ainda está em vigor uma lei segundo a qual somente os militares podem investigar crimes cometidos por militares.

"O resultado dos veredictos será como o daquele soldado que fez ''testes de virgindade'' em manifestantes presas nos protestos de 9 de março", diz o comunicado. Naquele caso, um tribunal declarou o acusado inocente, alegando que havia contradições nos depoimentos das testemunhas.

Também neste domingo, no Cairo, choques entre policiais e moradores do bairro de Shubra al-Kheima deixaram 4 mortos e 12 feridos. Segundo o Ministério da Saúde, entre os feridos estavam dois oficiais e um recruta da polícia.

De acordo com funcionários da polícia, o confronto começou quando um morador foi atingido por uma bala perdida durante a perseguição de um traficante de drogas por policiais. Os manifestantes passaram a atacar a polícia com pedras atiradas dos prédios em volta. As informações são da Associated Press.

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