Manifestantes de Ferguson contestam isenção de promotor em caso racial

Sob suspeição. Procurador responsável pela investigação da morte de um jovem afro-americano em Missouri, Robert McCulloch é filho de um policial assassinado por um suspeito negro em 1964; júri começa a decidir se autor dos disparos deve ser processado

CLÁUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL , FERGUSON, EUA, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2014 | 02h01

Filho de um policial assassinado por um suspeito negro em 1964, o procurador responsável pela investigação da morte de um jovem afro-americano em Ferguson teve sua isenção questionada por moradores da região, mas se recusou a deixar o caso. Ontem houve a primeira sessão do júri que decidirá se o policial branco que deu seis tiros em Michael Brown deve ser processado criminalmente.

O procurador Robert P. McCulloch tem vários laços de parentesco com funcionários do Departamento de Polícia de Saint Louis, a cerca de 15 quilômetros de Ferguson, onde trabalham sua mãe, irmão, tio e primo. "Ele tem de renunciar a esse caso, porque não tem isenção em razão de sua história pessoal", disse Lakeisha Ellis, que ontem protestava nas ruas de Ferguson carregando cartaz com os dizeres "Nixon, McCulloch Knowles and Jackson, disperse now!", uma referência ao procurador, seus assistentes e ao governador do Missouri, Jay Nixon. "Dispersar" é a ordem mais frequente dada pela polícia aos manifestantes na cidade.

O secretário de Justiça dos EUA, Eric Holder, esteve ontem em Ferguson e em Saint Louis e disse a estudantes e líderes comunitários que o governo federal fará uma investigação imparcial e extensa sobre a morte de Brown. "A mudança está chegando", afirmou durante encontro na manhã de ontem.

Holder, porém, tem poder apenas sobre a investigação federal relativa a possíveis violações de direitos civis do jovem morto. O eventual processo contra o policial sob acusação de ter cometido o crime é de competência da Justiça local e do procurador McCulloch, que rechaçou os questionamentos de sua isenção.

Filiado ao Partido Democrata, McCulloch é procurador há 24 anos - nos EUA, os ocupantes do cargo são eleitos e não selecionados em concurso. "Eu não tenho nenhuma intenção de renunciar aos deveres e responsabilidades que me foram atribuídos por essa comunidade", declarou ontem em entrevista a uma rádio. "Eu sou justo e imparcial em todas as questões que me são apresentadas."

A senadora de Missouri Jamilah Nasheed, que é negra, coletou 70 mil assinaturas online para uma petição que pede a renúncia de McCulloch do caso e a indicação de um procurador especial para comandar a investigação. Em razão do estado de emergência decretado em Ferguson, o governador Nixon poderia substituir o procurador, mas ontem anunciou que o manteria na investigação.

Os manifestantes que marcham nas ruas de Ferguson exigem a prisão de Wilson e sua condenação sob acusação de homicídio. Para McCulloch, porém, a deliberação dos jurados sobre a abertura de processo contra o policial deve se estender até meados de outubro.

Além da apresentação de provas, deve ocorrer o depoimento de testemunhas e do policial que deu seis tiros em Brown, no dia 9, que diz ter agido em legítima defesa. A versão é confirmada por algumas testemunhas e contestada por outras, segundo as quais o jovem tentava se render com as mãos para o alto quando foi atingido.

Tensão. Os protestos que se repetem todos as noites em Ferguson se transformam ontem à noite em tumulto quando um homem e uma mulher brancos apareceram na rua principal da cidade com cartazes em defesa de justiça para Wilson.

Os dois foram cercados por dezenas de manifestantes. "Estamos aqui porque achamos que só está sendo contado um lado dessa história", disse ao Estado o homem, que se identificou apenas como Chuck. Depois de uma tensa caminhada acompanhada por um número crescente de policiais, os dois foram colocados em uma viatura e retirados do local.

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