ISAAC LAWRENCE / AFP
ISAAC LAWRENCE / AFP

Manifestantes de Hong Kong tentam um novo caminho para se expressar após lei de segurança chinesa

Protestos e exibição de cartazes são considerados crimes; ruas antes lotadas agora estão vazias e silenciosas

Vivian Wang, Elaine Yu e Tiffany May, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2020 | 03h00

HONG KONG - Uma barca com enormes bandeiras vermelhas celebrando a nova lei de segurança da China atravessou o famoso Victoria Harbor de Hong Kong algumas horas depois de a lei ser sancionada. A polícia agora exibe um cartaz de cor púrpura alertando os manifestantes de que seus slogans de protesto são considerados crime. Ao longo das ruas mais importantes da cidade, bandeiras coloridas em neon saúdam uma nova era de estabilidade e prosperidade.

Nos últimos dias, enquanto a China comemora vitória com a lei imposta à cidade, as multidões desafiadoras que antes lotavam as ruas de Hong Kong ficaram silenciosas. Os avisos com mensagens colados nas paredes de estabelecimentos pró-democracia foram retirados pelos proprietários temerosos com as palavras ali escritas. Os pais se perguntam se impedem seus filhos de cantar uma canção popular de protesto, ao passo que os ativistas procuram maneiras codificadas de expressar suas ideias, agora perigosas.

Aparentemente da noite para o dia, Hong Kong ficou visível e visceralmente diferente, com seus mais de sete milhões de habitantes tendo de entender o que a lei significará para suas vidas. A cultura distinta de ativismo político e liberdade de expressão do território, às vezes audaciosamente dirigida contra o Partido Comunista da China, está em risco.

Para algumas pessoas alarmadas com a ferocidade dos tumultos do ano passado, que por vezes transformaram distritos de compras, bairros e áreas em torno das universidades em campos de batalha, a lei trouxe um certo alívio e otimismo. Para outras, que esperavam que a campanha de protesto viesse a assegurar as desejadas liberdades, a lei sinaliza uma nova era de medo e incerteza.

“Este é o meu lar”, disse Ming Tse, sentado no café que dirige que outrora apoiou firmemente os manifestantes. “Mas não acho que este lar nos ama mais”.

Por meses, o amor de Tse por seu lar ficou à mostra no seu café no bairro operário de North Point. Perto da sua máquina registradora havia cartões postais de protesto. Um poster condenava os tiros da polícia contra dois estudantes que protestavam. Mesmo depois de os oponentes do movimento ameaçarem vandalizar o café, a decoração continuou.

Nova decoração 

Mas agora Tse, de 34 anos, retirou tudo. Notícias davam conta de que a polícia havia interrogado proprietários de restaurantes que exibiam toda aquela parafernália de protesto. A lei de segurança criminaliza “a subversão” do governo, crime que segundo a polícia abrange também os slogans políticos.

Tudo o que restou foi um pequeno dinossauro de plástico sobre o balcão com um capacete amarelo, que era usado pelos manifestantes enfrentando a polícia e se tornou um símbolo da sua força. “Não sei se eles são tão suscetíveis. É apenas um capacete num dinossauro”, disse Tse.

Os limites da criminalidade foram retraçados e isto ficou claro na sexta-feira 3, quando as autoridades acusaram um jovem de 24 anos de terrorismo e incitação ao separatismo - o primeiro indivíduo a ser indiciado com base na nova lei. Com a bandeira “Liberte Hong Kong” colocada na sua moto, o homem dirigiu-se a um grupo de policiais na quarta-feira anterior, aniversário do retorno de Hong Kong do domínio britânico para a China.

Por muitos anos, esse feriado atraiu grandes multidões defendendo a democracia. Mas, desta vez, as reuniões foram proibidas. A situação ficou mais perigosa, com os crimes contemplados na lei de segurança podendo ser punidos com prisão perpétua nos casos mais graves. Uma autoridade chinesa disse que a lei tem como objetivo intimidar os agitadores como a espada de Dâmocles.

A polícia coletou amostras de DNA e fez batidas nas casas das 10 pessoas presas por suspeita de incitação à subversão - medidas que parecem excessivas quando aplicadas no caso de pessoas acusadas apenas de portar panfletos, disse Janet Pang, advogado que está ajudando alguns dos acusados.

Do mesmo modo que a identidade de Hong Kong, seu capitalismo independente é o seu orgulho. Barracas nas ruas com frequência são vistas ao lado das ruas de compras mais agitadas da cidade com mensagens políticas. Pequenas livrarias em espaços comerciais caros vendem livros proibidos no continente.

Na quarta-feira 1, em um desses centros comerciais, alguém pintou com spray a frase “Levantem-se, vocês que se recusam a ser escravos”, frase inicial do hino nacional da China.

E uma loja, no lugar dos slogans de protesto, exibia vários posters de propaganda da China da era de Mao, incluindo um com os dizeres: “Revolução não é crime, rebelião é justificável”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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