Claudio Reyes/AFP
Claudio Reyes/AFP

Novo protesto no Chile acaba em grande incêndio no centro de Santiago

Mais cedo, manifestantes chilenos tentaram marchar rumo ao Palácio de La Moneda, sede do Executivo

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 18h16
Atualizado 29 de outubro de 2019 | 12h16

SANTIAGO - Novos protestos contra o presidente do Chile, Sebastián Piñera, foram reprimidos pela polícia nesta segunda-feira, 28, nas cidades de Santiago, Valparaíso e Concepción. Segundo o diário La Tercera, manifestantes na capital chilena tentaram marchar rumo ao Palácio de La Moneda, sede do Executivo chileno e foram contidos pela polícia.

A passeata rumo ao palácio acabou terminando em um incêndio de grandes proporções em um shopping em pleno centro da capital após horas de distúrbios e confrontos com a polícia. O shopping foi saqueado primeiro, e depois sofreu o incêndio, que se espalhou por edifícios vizinhos, gerando uma enorme coluna de fumaça.

São os primeiros confrontos desde que Piñera retirou no domingo o estado de emergência que vigorava no país havia dez dias. Ao menos 20 pessoas morreram desde o início dos protestos, que deixaram centenas de feridos e milhares de detidos.

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A passeata tinha sido convocada com o objetivo de pressionar o governo e mostrar o descontentamento social, mas a ação dos carabineiros (polícia militarizada) fez com que os manifestantes só conseguissem chegar a 200 metros da entrada do palácio.

Até esse ponto, a passeata alcançava quase um quilômetro pela alameda Bernardo O'Higgins, a principal avenida de Santiago. Na linha de frente, manifestantes radicais montaram barricadas, incendiaram pedaços de madeira e jogaram pedras e outros objetos nos policiais, que responderam lançando bombas de gás lacrimogêneo e jatos d'água.

Foi durante os confrontos que um grupo de encapuzados forçou a porta de entrada do shopping e começou a saqueá-lo, assim como havia acontecido mais cedo em algumas farmácias e lojas de rua.

Após o saque, um incêndio tomou conta do estabelecimento. As chamas acabaram chegando a dois altos edifícios comerciais vizinhos, mas bombeiros voluntários conseguiram evitar que o fogo se espalhasse ainda mais.

Simultaneamente, a Praça Itália, epicentro dos protestos que completam nesta segunda-feira 11 dias consecutivos, também era palco de distúrbios. Homens mascarados colocaram fogo no acesso à estação de metrô Baquedano, onde, segundo denúncias, alguns agentes teriam torturado manifestantes detidos.

Os incidentes de hoje começaram na hora em que o presidente anunciava um novo gabinete, uma das medidas adotadas pelo líder chileno para acalmar os protestos.  Na sexta-feira, mais de 1,2 milhão de pessoas tomaram as ruas de Santiago para protestar contra Piñera. 

Os protestos começaram com reclamações contra o aumento da tarifa de metrô em Santiago, mas o descontentamento com o alto custo de vida e o modelo de serviços voltados para o setor privado também mobilizou os manifestantes.

Anistia Internacional investigará possíveis abusos de policiais

A Anistia Internacional investigará, a partir desta segunda, mais de 100 denúncias de abusos policiais supostamente cometidos no Chile durante a explosão social deflagrada há dez dias, o que levou o governo a mobilizar as Forças Armadas pela primeira vez desde a volta da democracia, em 1990. 

"De fora estamos observando a situação do Chile com muita preocupação", disse Pitxu San Martín, um dos investigadores da ONG que está em Santiago para investigar as denúncias sobre violações dos direitos humanos durante a crise, que deixou 20 mortos.

A equipe da Anistia manteve uma reunião com representantes do Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) que após dez dias de confrontos nas ruas apresentou um relatório com 101 ações judiciais; cinco delas por homicídio, 54 por tortura e 8 por violência sexual.

O relatório inclui 1.132 feridos, sendo 38 por bala, 295 por disparos de escopeta, 238 por armas de fogo não identificadas e 24 por tiros de chumbinho.

A ONG explicou que tem "uma equipe de análise de material gráfico e outra para análise de munições e armas", que trabalharão nas investigações, a princípio por duas semanas.

Ao menos cinco das 20 mortes ocorridas durante a crise foram provocadas por militares ou policiais que ocuparam as ruas quando o presidente Sebastian Piñera decretou o estado de emergência, segundo o INDH.     

Ainda na semana passada, a Alta-Comissária para os Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) e ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, aceitou o convite de Piñera para enviar uma equipe ao país a fim de investigar as denúncias de abusos cometidos por policiais.           

Presidente troca parte do ministério

O presidente Sebastián Piñera anunciou também nesta segunda a troca de oito de seus ministros, entre eles o controverso chefe de gabinete, Andrés Chadwick, enquanto outros 16 foram confirmados no cargo.

Ex-decano da Escola de Governo da Universidade Adolfo Ibáñez, o economista liberal Ignacio Briones, de 46, assume como ministro da Fazenda, no lugar de Felipe Larraín. Este último foi duramente questionado por sua recomendação "aos românticos", ao anunciar em setembro que o Chile não havia registrado inflação, para que comprassem flores. Segundo Larraín, até o valor das flores havia caído.

As nomeações incluem Gonzalo Blumel como o novo chefe de gabinete, depois de servir como ministro secretário-geral de governo, um dos nomes mais carismáticos e o mais jovem do gabinete, com 41 anos.

"É alguém que se caracteriza por ser bastante aberto ao diálogo", afirmou o presidente do partido democrata-cristão (oposição), Fuad Chahín, em uma primeira reação ao nome de Blumel.

Nomes criticados perdem espaço

A ex-intendente de Santiago, a médica Karla Rubilar, de 42, que teve uma elogiada participação nos recentes protestos, assumiu como porta-voz do Executivo. Ela substitui Cecilia Pérez, que passou para a pasta dos Esportes.

O ex-líder do movimento estudantil "pinguim de 2006" Julio Isamit assumiu a pasta de Bens Nacionais, enquanto a ex-subsecretária de Proteção Social María José Zaldívar ficará no Ministério do Trabalho.

O ex-subsecretário de Obras Públicas Lucas Palacio assumiu a Economia, no lugar de Andrés Fontaine, criticado por pedir à população "para acordar mais cedo". A sugestão foi uma forma de enfrentar a alta no bilhete de metrô no horário de maior fluxo. O ex-ministro de Bens Nacionais Felipe Ward será ministro secretário da Presidência.

"O Chile não é o mesmo que tínhamos há duas semanas. O Chile mudou, e o governo também tem que mudar e enfrentar estes novos desafios e estes novos tempos", repetiu o presidente na cerimônia de posse de novos ministros. /AFP e AP

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