Gabinete do Líder Supremo Iraniano / Via AP
Gabinete do Líder Supremo Iraniano / Via AP

Iranianos saem às ruas contra o governo após Irã admitir que derrubou avião por engano

Donald Trump acompanha as manifestações e alerta Teerã sobre repressão aos atos; embaixador britânico no Irã ficou detido por algumas horas

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2020 | 15h07
Atualizado 12 de janeiro de 2020 | 07h41

Manifestantes protestaram neste sábado, 11, em Teerã, em atos contra o aiatolá Ali Khamenei após o Irã admitir ter derrubado por engano um avião ucraniano, que causou a morte das 176 pessoas que estavam a bordo na quarta-feira 8.

Centenas de pessoas se reuniram na frente da Universidade Amir Kabir. "Comandante (Khamenei), renuncie, renuncie", gritavam, de acordo com a Reuters. Imagens do protesto circularam pelas redes sociais. Outros atos também começaram a ser registrados em outros locais da cidade.

Até a agência de notícias iraniana Fars News, que raramente noticia protestos anti-governo, tem registrado protestos contra autoridades do país, que vive uma escalada de tensão desde a morte do general Qassim Suleimani em operação dos Estados Unidos.

A vigília foi ampliada e se tornou um protesto contra as autoridades. “A renúncia (dos responsáveis) não é suficiente, é necessário um julgamento”, gritavam os manifestantes, além de “morte ao ditador”, em alusão ao líder supremo do Irã, Ali Khamenei, e pedidos de um referendo para o país.

Quando a manifestação começou a ganhar corpo, um grande esquema de segurança foi montado em torno da universidade e outras áreas do centro de Teerã. 

Donald Trump elogiou os manifestantes e pediu que Teerã impeça outro massacre durante os protestos. “Ao corajoso povo do Irã que há muito sofre: estou ao lado de vocês desde o começo da minha presidência e minha administração continuará ao seu lado. Estamos acompanhando seus protestos de perto, e estamos inspirados pela sua coragem”, escreveu no Twitter. 

Mais cedo, o embaixador do Reino Unido no Irã, Rob Macaire, chegou a ser detido por várias horas em frente á universidade Amir Kabir por incitar os protestos. “A detenção de nosso embaixador sem razão ou explicação é uma violação flagrante da legislação internacional”, afirmou o chanceler britânico, Dominic Raab.

Através do Twitter, o chefe de diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, condenou a prisão de Macaire e se disse preocupado com a situação. "É necessário o máximo de respeito à Convenção de Viena. A UE instaura a distensão e o espaço para a diplomacia", publicou através da rede social.

Em nota, o embaixador negou na manhã deste domingo que houvesse participado de qualquer manifestação política no Irã, mas disse ter comparecido a um tributo às vítimas da queda do Boeing 737. "Fui a um ato apresentado como uma vigília em memória das vítimas da tragédia do avião da Ukraine International Airlines, derrubado próximo ao Teerã nesta quarta. É normal querer prestar minhas homenagens, já que algumas vítimas eram britânicas", afirmou. De acordo com Macaire, ele abandonou o local cerca de cinco minutos depois, "quando algumas pessoas começaram a protestar contra as autoridades". 

Após a morte de Suleimani, que era visto como um ícone nacional, os iranianos reuniram-se em apoio aos seus líderes. Os protestos deste sábado sinalizam uma mudança de comportamento após a mea culpa iraniana a respeito do avião ucraniano.

O Irã negou por vários dias que um míssil teria derrubado a aeronave. Mas a pressão internacional aumentou quando Estados Unidos e o Canadá, citando informações de inteligência, disseram acreditar na hipótese.

Ao admitir a culpa, o Irã falou em um “erro humano”. A aeronave foi abatida poucas horas depois de o país lançar um ataque de míssil balístico em duas bases no Iraque, onde havia militares dos EUA, em retaliação pelo assassinato de Suleimani. Ninguém foi ferido no ataque às bases.

O avião, a caminho da capital ucraniana de Kiev, levava 167 passageiros e nove tripulantes de vários países, incluindo 82 iranianos, 57 canadenses e 11 ucranianos, segundo autoridades.

Em comunicado, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, exigiu uma punição para os responsáveis pelo ataque. "Esperamos que o Irã leve os culpados à justiça" e "paguem pelas compensações", disse em nota. / REUTERS, AFP 

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