REUTERS/Ivan Alvarado
REUTERS/Ivan Alvarado

Manifestantes indígenas libertam policiais feitos reféns em Quito

Principal organização indígena do Equador rejeita diálogo e fala em radicalização de ações durante protestos

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2019 | 03h05

QUITO - O movimento indígena do Equador libertou na noite desta quinta-feira os dez agentes da Polícia Nacional que eram mantidos reféns na Casa da Cultura Equatoriana (CCE) desde a manhã desta quinta-feira, 10.

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A libertação dos agentes foi confirmada pela ministra de Governo do Equador, María Paula Romo, em entrevista coletiva. Além disso, ela afirmou que os manifestantes indígenas permitiram a saída dos jornalistas que também estavam retidos no prédio.

Os indígenas entregaram os agentes após o funeral de Inocencio Tucumbi, uma das lideranças do movimento que foi morto ontem durante os protestos contra o governo. Quatro policiais carregaram o caixão de Tucumbi até o hall da CCE, onde foi realizada uma missa.

Depois da cerimônia, os dez agentes foram levados pela "guarda indígena" até o Parque Alameda, no centro histórico de Quito, em uma manifestação acompanhada por centenas de pessoas. No local, os policiais foram libertados na presença de representantes da ONU e da Defensoria do Povo do Equador.

"Agradecemos a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie) pela entrega pacífica dos policiais. Consideramos isso como um gesto de boa vontade que contribuiu para criar condições de maior confiança para prevenir a violência e buscar uma saída negociada para esta situação", afirmou da delegação da ONU no Equador em mensagem divulgada nas redes sociais.

Oito dos agentes da Polícia Nacional tinham sido sequestrados no começo da manhã e outros dois durante um prolongado comício que os indígenas realizaram ao longo do dia na CCE.

A simbólica marcha e a entrega dos agentes foi liderada pelo presidente da Conaie, Jaime Vargas, e por Leonidas Iza, dirigente do Movimento Camponês de Cotopaxi, do qual Inocencio Tucumbi fazia parte.

Indignados com a morte de um de seus representantes, os indígenas capturaram os agentes para fazê-los de "escudos" contra qualquer ação de repressão da Polícia Nacional no protesto organizado dentro da CCE.

Durante o comício, os agentes foram colocados no palco instalado no local e obrigados a usar os rádios que carregavam para negociar com os policiais que estavam do lado de fora do prédio.

Eles também retiveram cerca de 30 jornalistas de veículos da imprensa local e internacional. Alguns foram levados ao mesmo palco para admitir que estavam dentro do prédio por vontade própria.

Em comunicado, a Conaie reconheceu que controlou o acesso à CCE, mas disse que tinha como objetivo impedir a entrada de indivíduos que pudessem ser violentos.

Desde que chegaram em Quito para protestar contra as medidas econômicas anunciadas pelo governo de Lenín Moreno, os indígenas tentaram se distanciar da violência protagonizada por outros grupos na capital do país.

No entanto, na saída do comício na CCE, um jornalista da emissora "Teleamazonas" ficou gravemente ferido após levar uma pedrada na cabeça. Diferentes vídeos divulgados nas redes sociais mostram o profissional caminhando, seguido por várias pessoas, quando o agressor lança a pedra com grande violência, de uma distância muito curta.

Indígenas rejeitam diálogo e querem radicalizar protestos

Em um comunicado assinado pelo presidente da Conaie, Jaime Vargas, a principal organização indígena do Equador afastou a possibilidade de diálogo com o governo de Lenín Moreno para resolver a crise. "Nada de diálogo com um governo assassino", escreveu no comunicado.

O dirigente, que pediu para "radicalizar as ações" mediante "bloqueios de vias e ocupações" de edifícios públicos, discursou para os indígenas que se concentram em Quito.

"Vamos radicalizar com mais força, companheiros, e se tiverem que me denunciar, se tiverem que me matar, que me matem!", exclamou Vargas.

O dirigente frustrou a expectativa aberta por Moreno de um possível acordo com mediação da Igreja católica e das Nações Unidas. 

Denúncia sobre envolvimento venezuelano

Nesta quinta, o governo do Equador voltou a sugerir a interferência do governo da Venezuela no levante dos protestos, após o presidente acusar o mandatário Nicolás Maduro de articular aliados para “desestabilizar” Moreno, em conjunto com o ex-presidente ecuatoriano Rafael Correa, que considera Moreno um “traidor”.

A ministra do Interior, Maria Paula Romo, disse que 17 pessoas foram presas no aeroporto de Quito na manhã de quinta, sendo que a maioria delas são venezuelanas. Ela não mencionou o motivo das prisões, limitando-se a dizer que os detidos tinham informações sobre a movimentação de Moreno e do vice-presidente do Equador. 

Nesta quinta, o deputado venezuelano Carlos Valero, integrante da Comissão de Política Exterior do parlamento venezuelano, liderado pela oposição, informou que a comissão está investigando em conjunto com o Equador se o governo de Maduro está financiando grupos envolvidos nos protestos

Indígenas já derrubaram três presidentes no Equador

Historicamente, os grupos indígenas têm um papel de protagonistas na política equatoriana. Durante a instabilidade dos anos  90 e 2000, a Conaie apoiou a destituição dos presidentes Jamil Mahuad, Abdalá Bucaram e Lucio Gutiérrez. Na época, o Equador teve oito presidentes em dez anos. 

Com a chegada de Correa ao poder, em 2007, o país viveu um período de estabilidade econômica e política graças ao boom das commodities e políticas sociais do presidente, que reformou a Constituição para se reeleger. 

No começo do mandato, Correa se aproximou de lideranças indígenas. Adotou símbolos quéchuas – etnia da maioria dos indígenas do país – em seus discursos e aparições públicas e aprovou leis de interesse da comunidade.

A partir do segundo mandato, a exploração mineral da Amazônia equatoriana abriu uma cisão entre Correa e a Conaie. Uma marcha similar à atual foi convocada contra o presidente, em 2015. / com AFP, EFE e Reuters

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