REUTERS/Ivan Alvarado
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Manifestantes indígenas apreendem oito policiais no Equador

Desde o início das manifestações contra as reformas econômicas de Moreno, cinco pessoas já morreram, 400 estão feridas e 800 foram presas

Carla Bridi, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2019 | 13h17
Atualizado 10 de outubro de 2019 | 18h01

QUITO - Manifestantes indígenas que protestam contra o presidente do EquadorLenín Moreno, mantêm oito policiais apreendidos nesta quinta-feira, 10, na Casa da Cultura equatoriana em Quito, em meio a confrontos com autoridades no país.

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Desde o início das manifestações contra as reformas econômicas de Moreno, que levaram ao aumento de até 123% no preço dos combustíveis, há uma semana, cinco pessoas já morreram, 400 estão feridas e 800 foram presas, segundo a Defensoria Pública.

“Do lado de fora nos disseram que o governo vai jogar bombas de gás aqui dentro. Então não vamos soltá-los porque exigimos respeito”, disse Fabián Mazanda, um dos representantes da Confederação de Nações Indígenas do Equador (Conaie), principal organização indígena do país.

Mais tarde, a Confederação das Nações Indígenas do Equador (Conaie) disse que os policiais terão seus direitos garantidos e negou que jornalistas estejam sendo detidos no local. Segundo a entidade, alguns profissionais decidiram voluntariamente se juntar aos protestos. 

Ainda de acordo com Mazanda, se os manifestantes forem reprimidos pela polícia dentro da Casa de Cultura, os policiais ali presos serão submetidos à “Justiça ancestral indígena”. 

Mais cedo, a Conaie declarou luto pela morte de um de seus ativistas na quarta-feira. Além disso, a organização rejeitou o diálogo aberto com o governo e pediu para radicalizar o protesto contra os ajustes econômicos. “Companheiros, companheiras, vamos radicalizar as ações. Nada de diálogo com um governo assassino”, declarou a Conaie em comunicado assinado por seu presidente, Jaime Vargas.

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“A tarefa é ir à luta, renovar forças e sustentar os bloqueios de estradas e as tomadas de governos e prédios públicos”, acrescentou o líder do protesto.

A um público que festejava a detenção dos policiais no parque El Arbolito, em Quito, território que foi adotado pelo movimento indígena como a base da oposição, os oito agentes foram expostos em um palco e pediu-se que retirassem seus capacetes, coletes à prova de balas e botas. 

Ao lado no palco, Vargas informou ao público que havia ordenado "nossos parceiros na Amazônia a fecharem todos os postos de petróleo". O líder ainda acrescentou, em mensagem a Moreno, para que ele "não brinque com o povo indígena". Os corpos de manifestantes mortos também foram solicitados, para que sejam levados à assembleia. 

Dessa maneira, o líder jogou água fria na expectativa aberta pelo presidente Moreno para um possível acordo por parte da Igreja católica e das Nações Unidas. Em resposta, o governo pediu a soltura dos policiais como uma condição para dialogar. "Nós demandamos que qualquer processo de diálogo seja feito em uma estrutura de paz", disse à imprensa o secretário geral do governo, José Briones. 

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Ao Estado, a socióloga,da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE), Natalia Sierra, explicou que pelo fato de o Equador ser um Estado plurinacional, os povos indígenas têm o direito do exercício da Justiça indígena em seus territórios. Eles também declaram estado de exceção em suas regiões.

"Isso permite que qualquer pessoa que eles considerem que esteja atentando contra sua resistência podem ser detidas, não importa se são militares ou policiais", disse. 

Ainda de acordo com ela, o parque El Arbolito, onde se concentram os indígenas em Quito, é um local histórico que já foi palco de mobilizações indígenas em governos anteriores, e por isso está sob a regra do estado de exceção indígena. 

Justiça ancestral e purificação espiritual

A especialista explica que a aplicação da "justiça ancestral" se baseia em um ritual espiritual. "Não há o sistema ocidental de detenção sem cura. Neste sentido, não é um castigo, é uma bênção espiritual", diz 

"O ritual é feito faz com banhos de ervas, que os próprios indígenas também tomam para purificar. Eles têm sua própria lógica, que não é o cárcere, mas sim a cura espiritual e devolução à comunidade", acrescenta. 

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Nos últimos dias, ao menos 800 pessoas foram presas nos protestos contra o presidente, que assumiu o governo em 2017 e se distanciou do padrinho político, o ex-presidente Rafael Correa, ao adotar uma política econômica pró-mercado. 

A Conaie acusou o governo de atuar como uma ditadura militar ao reprimir os protestos. Na noite de ontem, o presidente decretou toque de recolher em alguns bairros de Quito que abrigam prédios públicos, depois de um grupo de manifestantes ter invadido a Assembleia Nacional. 

Denúncia sobre envolvimento venezuelano

Nesta quinta, o governo do Equador voltou a sugerir a interferência do governo da Venezuela no levante dos protestos, após o presidente acusar o mandatário Nicolás Maduro de articular aliados para “desestabilizar” Moreno, em conjunto com o ex-presidente ecuatoriano Rafael Correa, que considera Moreno um “traidor”.

A ministra do Interior, Maria Paula Romo, disse que 17 pessoas foram presas no aeroporto de Quito na manhã de quinta, sendo que a maioria delas são venezuelanas. Ela não mencionou o motivo das prisões, limitando-se a dizer que os detidos tinham informações sobre a movimentação de Moreno e do vice-presidente do Equador. 

Nesta quinta, o deputado venezuelano Carlos Valero, integrante da Comissão de Política Exterior do parlamento venezuelano, liderado pela oposição, informou que a comissão está investigando em conjunto com o Equador se o governo de Maduro está financiando grupos envolvidos nos protestos

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Historicamente, os grupos indígenas têm um papel de protagonistas na política equatoriana. Durante a instabilidade dos anos  90 e 2000, a Conaie apoiou a destituição dos presidentes Jamil Mahuad, Abdalá Bucaram e Lucio Gutiérrez. Na época, o Equador teve oito presidentes em dez anos. 

Com a chegada de Correa ao poder, em 2007, o país viveu um período de estabilidade econômica e política graças ao boom das commodities e políticas sociais do presidente, que reformou a Constituição para se reeleger. 

No começo do mandato, Correa se aproximou de lideranças indígenas. Adotou símbolos quéchuas – etnia da maioria dos indígenas do país – em seus discursos e aparições públicas e aprovou leis de interesse da comunidade.

A partir do segundo mandato, a exploração mineral da Amazônia equatoriana abriu uma cisão entre Correa e a Conaie. Uma marcha similar à atual foi convocada contra o presidente, em 2015. / com AFP, EFE e Reuters

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