Jim Dedmon-USA TODAY Sports
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Manifestantes mantêm protestos em Charlotte após polícia divulgar vídeo de morte de negro

Imagens não confirmam se Scott estava realmente armado, como a polícia alega; multidão se reúne em protesto diante de estadio antes de jogo

O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2016 | 15h55

 CHARLOTTE, EUA - Com quase uma semana de manifestações contra o assassinato de um homem negro pela polícia em Charlotte, a Carolina do Norte não mostrou neste domingo sinais de enfraquecimento após a polícia divulgar dois vídeos que mostram a vítima sendo baleada, mas que não respondem se o homem estava armado ou não.

Cerca de cem pessoas manifestaram-se neste domingo do lado de fora do estádio de Charlotte enquanto o hino nacional era tocado antes de uma partida de futebol americano. Agentes anti-distúrbio faziam a segurança do estádio, enquanto policiais em bicicletas circulavam em volta dos manifestantes. 

No sábado à noite, após a divulgação dos vídeos, centenas marcharam pelo centro de Charlotte. Famílias brancas e negras protestaram contra a violência policial. Pela primeira vez em três noites, a polícia determinou toque de recolher, informando que os infratores seriam presos. Uma multidão reunida em frente à sede da polícia se dispersou pouco depois da meia-noite sem qualquer tipo de violência.

A controvertida morte pela polícia de Keith Lamont Scott, de 43 anos, na terça-feira. fez de Charlotte, a maior cidade e centro financeiro da Carolina do Norte, desencadeou o mais recente ponto de inflamação em dois anos de intensas manifestações contra assassinatos de homens negros, a maioria desarmada.

Kerr Putney, chefe de polícia do condado de Charlotte-Mecklenburg, reconheceu que os vídeos seriam "insuficientes" para provar que Scott portava uma arma, mas disse que outras provas completam o quadro. "Não há nenhuma evidência visual definitiva de que ele tinha uma arma na mão", disse Putney. "Mas o que vemos é uma prova de que, quando juntamos as peças, apoia isso."

As duas gravações, uma filmada com a câmera do carro policial e outra com a corporal de um dos agentes que acompanhavam o policial que atirou, não serviram para convencer nem a família da vítima nem os manifestantes que a versão policial é certa: que atiraram em Scott porque estava armado e era uma ameaça.

A polícia, no entanto, defende que embora "não haja provas visuais definitivas" que o homem tinha uma arma, encontraram evidências no local: a pistola e o estojo dos quais publicaram fotografias. Além disso, assegura que encontraram as impressões digitais e o DNA de Scott na arma.

Os advogados da família de Scott disseram ao "Washington Post" que esta é a primeira prova que lhes é apresentada da arma e a viúva da vítima não está convencida de que a pistola estivesse nas mãos de seu marido ou que este apontasse para os policiais.

"Infelizmente nos deixam com muito mais perguntas do que respostas", disse ao jornal Ray Dotch, cunhado de Scott.

A polícia apresentou novos detalhes sobre sua versão do ocorrido: agentes à paisana estavam esperando para executar uma ordem de detenção contra outra pessoa quando Scott chegou com seu veículo perto deles e acendeu um cigarro de maconha.

Então, segundo seu relato, viram ele levantar uma pistola e imediatamente se identificar como policiais.

"Ele cometeu um crime (possuir maconha) e isso foi o que causou o encontro (com a polícia) e então a pistola exacerbou o encontro", afirmou o chefe de Polícia de Charlotte, Kerr Putney na entrevista coletiva na qual anunciou a iminente publicação dos vídeos.

A polícia tinha dito anteriormente que o policial que atirou, o afro-americano Brentley Vinson, não usava uma câmera pessoal instalada em seu uniforme, mas sim os outros agentes que estavam no local. A publicação dos vídeos era uma das principais exigências dos manifestantes que saíram às ruas no sábado, sem que tenha acontecido por enquanto nenhum incidente.

A pressão pela divulgação dos vídeos se avivou nesta sexta-feira, após a publicação por parte da viúva da vítima de uma gravação com a câmera de seu telefone que registra o momento em que Scott recebe quatro tiros, apesar do ângulo do qual foi gravado o fato não permitir ver se a vítima estava armada.

O primeiro dos vídeos divulgados pela polícia de Charlotte mostra Scott saindo de um carro e recuando quando a polícia faz quatro disparos, mas não fica claro se ele tem ou não uma arma na mão. Um segundo vídeo mostra Scott no chão, já baleado, enquanto os policiais o cercam e o algemam com as mãos nas costas.

A polícia também publicou uma fot de uma arma de fogo e um pacote de maconha que, segundo Putney, estavam em poder de Scott.

O governador da Carolina do Norte, Pat McCrory, disse, por sua vez, estar "de acordo com a decisão do chefe de polícia de Charlotte de liberar as imagens". "O Escritório Estatal de Investigações me assegurou que a difusão não teria nenhum impacto material sobre a investigação independente".

O vídeo gravado em um smartphone pela mulher da vítima, Rakeyia Scott, entregue por seus advogados a vários meios de comunicação, tem 2 minutos e 16 segundos e não mostra precisamente os tiros, mas captura os momentos que conduziram a eles, quando a mulher de Scott pedia aos policiais que não atirassem.

"Não atirem. Não atirem, ele não tem uma arma. Não tem arma. Não atirem", diz a mulher no início da filmagem. "Ele tem uma TBI, não vai fazer nada, rapazes", continua, aparentemente se referindo a uma lesão cerebral (traumatic brain injury). Muitos vizinhos disseram à AFP que Scott era deficiente e tinha problemas de fala.

"Keith, não faz isso", diz a esposa pouco antes de se escutar o som de quatro rápidos disparos, momento em que o celular desvia do lugar dos tiros. Depois Scott cai no asfalto, rodeado por policiais. / REUTERS, AFP e EFE

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