Alaa al-Marjani/Reuters
Alaa al-Marjani/Reuters

Manifestantes permanecem nas ruas do Iraque após ataque que matou 17 pessoas

Mais de 100 pessoas também ficaram feridas por atiradores; além das forças oficiais de segurança, país tem milícias armadas pró-Irã, aliado ao governo iraquiano

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2019 | 16h47

BAGDÁ - Milhares de manifestantes no Iraque continuam mobilizados neste sábado, 7, em protesto ao governo do país e o aliado Irã, apesar da morte de 17 manifestantes pelas mãos de um grupo armado em Bagdá, o que causou temores de um aumento da violência.

Logo após esse massacre na noite de sexta-feira, um drone lançou um morteiro ao amanhecer contra a casa do líder xiita Moqtada Sadr, um ataque que poderia “desencadear uma guerra civil”, de acordo com seu porta-voz, Salah al Obeidi.

Ele pediu ao mesmo tempo “moderação” e afirmou que estava “aguardando os resultados da investigação do governo”.  

Moqtada Sadr, político versátil e ex-chefe de milícia que oficialmente entregou as armas, mas mantém milhares de combatentes, não estava em casa no momento do ataque.

O líder xiita foi o primeiro a reivindicar a saída do governo, que renunciou há mais de uma semana, e enviou seus homens para “proteger” os manifestantes em Bagdá durante a noite.

Mas, apesar do que já é conhecido como "o massacre de Senek", com o nome da ponte perto da Praça Tahrir, em Bagdá, onde o ataque ocorreu, os iraquianos reuniram-se neste sábado até este ponto na capital e nas praças do Sul do país para pedir a queda de todo o sistema.

Além dos 17 mortos, 100 manifestantes foram feridos por homens armados que atacaram um estacionamento de vários andares, ocupado por esses manifestantes há semanas. O tiroteio continuou durante a noite nas ruas adjacentes.

O Estado iraquiano garantiu que não pode identificar os agressores ou detê-los, em um país onde as facções armadas pró-iranianas têm uma influência cada vez maior e, em muitos casos, são integradas às forças de segurança.

"Caminho perigoso"

O massacre deixou o país chocado e despertou as convicções unânimes dos ministérios das Relações Exteriores ocidentais.

O presidente iraquiano Barham Saleh apelou às forças de segurança para “proteger os manifestantes pacíficos” e “encontrar os rebeldes e entregá-los à justiça para receber as severas penas que merecem”.

Stephen Hickey, embaixador britânico em Bagdá, pediu ao governo que “proteja os manifestantes e tome medidas urgentes” para julgar os autores do ataque.

“Atos de violência liderados por bandas, que emergem da lealdade no exterior [...] podem colocar o Iraque em um caminho perigoso”, alertou a representante máxima da ONU no Iraque, Jeanine Hennis-Plasschaert.

No meio dos disparos e do caos noturno em Bagdá, membros das Brigadas da Paz de Moqtada Sadr destacaram-se para “proteger” os manifestantes, “mas sem armas”, afirmaram fontes do movimento.

Pouco depois, “por volta das 03h00 da madrugada [horário local], um drone lançou uma argamassa sobre a casa de Moqtada Sadr” na cidade sagrada xiita de Najaf, indicou outra dessas fontes, mas não causou danos humanos ou materiais.

Moqtada Sadr está atualmente no Irã, afirmam várias fontes, um país apontado por manifestantes por dois meses como o arquiteto do sistema político iraquiano, o qual chamam de corrupto e incompetente.

Esse dignatário xiita mantém um relacionamento complicado com Teerã: embora tenha sido visto em público ao lado de líderes iranianos, ele defende a independência política do Iraque e seus apoiadores exibem slogans anti-iranianos ao lado dos demais manifestantes.

Neste sábado, dezenas de seus apoiadores foram para sua casa ao som de “Somos seus soldados!”.

Polícia "não fez nada"

Na noite de sexta-feira em Bagdá, as forças de segurança não intervieram quando ocorreu o ataque de homens armados, segundo testemunhas.

Os disparos foram encadeados e a única coisa que os manifestantes puderam fazer foi espalhar as imagens do caos pelas redes sociais, em alguns casos ao vivo.

“As forças de segurança estavam a um quilômetro de distância e não fizeram nada”, relatou um médico na Praça Tahrir.

“Os tiros nos manifestantes eram intensos, cruéis, não deixaram as pessoas retirarem os feridos, foi um massacre”, insistiu um manifestante.

Fontes policiais dizem ter informações sobre o desejo de facções armadas pró-Irã de atacar manifestantes.

Para os protestantes, o “massacre de Senek” faz temer o pior. Em Najaf, vários manifestantes mortos em Bagdá foram enterrados ao meio-dia.

No total, cerca de 445 pessoas morreram violentamente desde o início dos protestos no Iraque, há dois meses.

Depois de anos tentando fortalecer sua presença no Iraque, o Irã agora está na primeira linha das negociações políticas, mas também mais exposto do que nunca à raiva dos manifestantes. / AFP      

Tudo o que sabemos sobre:
Iraque [Ásia]Irã [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.