REUTERS/Tyrone Siu
REUTERS/Tyrone Siu

Manifestantes invadem Parlamento de Hong Kong e aprofundam crise

Milhares de pessoas que participavam de marcha para marcar os 22 anos da transferência da soberania do território para a China se separaram do grupo e atacaram a sede do Legislativo; polícia expulsou manifestantes

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2019 | 05h07
Atualizado 01 de julho de 2019 | 22h30

HONG KONG - Manifestantes invadiram o Conselho Legislativo (Parlamento) de Hong Kong nesta segunda-feira, 1º, aniversário da devolução da cidade ao controle chinês em 1997, em meio à revolta generalizada com um projeto de lei que permitiria extradições à China, aprofundando o caos na cidade.

Dezenas de pessoas entraram no edifício. Os manifestantes tinham a intenção de permanecer durante toda a madrugada desta terça-feira, 2, dentro do prédio, mas o edíficio foi controlado pela polícia por volta da 1:30h da manhã de terça, totalizando mais de quatro horas de ocupação do prédio. A polícia usou cacetetes e gás lacrimogênio para dispersar os manifestantes nos arredores do Parlamento, que responderam atirando ovos. Aqueles que estavam do lado de dentro fugiram antes de a polícia entrar. 

Policiais do batalhão de choque equipados com capacetes, escudos e bastões usaram spray de pimenta para tentar impedir a invasão. No momento da entrada da multidão, no entanto, as forças de segurança aparentemente recuaram para evitar confrontos mais violentos.

Antes da manifestação, ainda na celebração do aniversário de 22 anos do retorno da cidade ao domínio chinês, a governante do território, Carrie Lam, havia afirmado que os protestos repetidos há semanas a ensinaram a ouvir mais a população. Após a invasão da sede do Legislativo, porém, ela condenou a violência e o vandalismo dos manifestantes.

"Quando ouvi que havia enfrentamento do lado de fora (do Parlamento) fiquei realmente preocupada, disse Amy Siu, uma contadora de 37 anos que participa da manifestação. "Me preocupo pela segurança desses jovens", completou.

Um grupo pequeno, composto na maioria por estudantes que usavam capacetes e máscaras, usou um carrinho de metal, barras e pedaços de andaime para quebrar o vidro reforçado e avançar contra o complexo do governo. Outros manifestantes cobriram estes com dezenas de guarda-chuvas para impedir que as câmeras gravassem seus rostos e pudessem ser identificados posteriormente.

"Eu não acuso os jovens (de estarem errado), eu acuso o governo", disse um manifestante de 80 anos que se identificou apenas com seu sobrenome, Yeung.

Os manifestantes, alguns com filme plástico ao redor dos braços para proteger a pele em caso de uso de gás lacrimogêneo, voltaram a paralisar partes do polo financeiro asiático ao ocupar ruas que já haviam interditado com barreiras de metal. Outros estavam ergueram barricadas com canos de ferro nas ruas de acesso para repelir a polícia e vasculhando ruas próximas em busca de grades.

Em uma dessas ruas adjacentes, Sam Mu, um artista local, tremulava bandeiras negras. "É o símbolo da queda de nossa cidade", disse. "As liberdades da nossa cidade estão diminuindo, estamos caminhando para o autoritarismo."

Raiz do descontentamento

As manifestações refletem o temor dos moradores de Hong Kong ante a crescente influência do governo da China, com a ajuda dos líderes do mundo das finanças na cidade. Pequim nega interferência na autonomia do território.

Carrie Lam suspendeu em 15 de junho o projeto de lei de extradição, que permitiria que pessoas fossem extraditadas para a China continental para serem julgadas em tribunais controlados pelo Partido Comunista, mas não chegou a descartá-lo, como exigido pelos manifestantes.

Apoiada por Pequim, Carrie se aferra ao cargo em um momento de reação inédita contra o governo e uma série de protestos em massa que representam o maior desafio popular ao líder chinês, Xi Jinping, desde que ele chegou ao poder, em 2012.

“Este é o fim de Hong Kong. Se Carrie Lam continuar sendo chefe do nosso Executivo, só vemos uma verdadeira escuridão adiante”, disse uma dona de casa de 60 anos de sobrenome Lau, que tem um passaporte estrangeiro. “Então queremos lutar pelos jovens.”

Os manifestantes também exigem a renúncia de Carrie, assim como a retirada das acusações contra as pessoas detidas nos protestos das últimas semanas. 

Os ativistas, em sua maioria jovens estudantes, prometem continuar sua campanha de desobediência civil. "Aconteça o que acontecer, não vamos desanimar", disse Jason Chan, um contador de 22 anos. "A resistência não é uma questão de um dia, é a longo prazo", prometeu.

Erosão das liberdades

O movimento, que nasceu da rejeição ao projeto de lei sobre extradições, ganhou força e passou a denunciar as ações do governo local, depois que muitos cidadãos de Hong Kong perderam a confiança ao considerar que o Executivo tem permitido a erosão de suas liberdades. 

Hong Kong foi transferida do Reino Unido para a China em 1997, mas o território ainda é administrado sob um acordo conhecido como "um país, dois sistemas".

Desta maneira, os habitantes do território desfrutam de direitos raramente vistos na China continental. Muitas pessoas, no entanto, sentem que lentamente Pequim vai deixando o acordo de lado.

A cada aniversário da devolução, ativistas locais organizam grandes manifestações para exigir direitos democráticos, incluindo a possibilidade de escolher o Executivo local por sufrágio universal. 

Em anos recentes, os ativistas conseguiram mobilizar grandes multidões - incluindo uma ocupação de dois meses em 2014 -, mas não conseguiram qualquer concessão importante por parte de Pequim. / REUTERS, AP, EFE e AFP

Tudo o que sabemos sobre:
Hong KongChina [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.