Jorge Amado Robert/ Cedida
Jorge Amado Robert/ Cedida

Manifestantes relatam 'calma tensa' em Cuba e grande número de detenções

Depoimentos de cubanos de Havana, Artemisa e Santiago descrevem um cenário onde forças de segurança se fazem notar nas ruas para intimidar oposição e nacionalização de atos contra o castrismo

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 20h00

Passados três dias do maior ato de oposição ao governo de Cuba, uma "calma tensa" tomou às ruas de algumas das principais cidades do país nesta quarta-feira, 14. Ativistas e manifestantes dizem que o número de prisões na onda de repressão aos protestos é grande e o destino de parte dos opositores detidos, principalmente os menos conhecidos, é incerto. 

O Estadão conversou com três cidadãos cubanos, de Havana, Santiago e Artemisa, que relataram um pouco do que se passou nos últimos dias em suas cidades - e como o isolamento provocado pelo corte das comunicações levado a cabo pelo governo dificultou uma compreensão da integralidade do que ocorreu e do que ocorre na ilha neste momento.

Leia os relatos:

Maurício Mendoza - Jornalista - Havana

De domingo até agora, tem chegado rumores de que continuaram acontecendo protestos em diferentes partes do país, mas não temos confirmação de cada um deles, porque ficamos como cegos quanto cortaram a internet, Não tínhamos como nos conectar com as pessoas.

O que é real nas últimas 48 horas, e eu posso dizer com certeza, é que há uma grande quantidade de detidos. As pessoas mais conhecidas midiaticamente foram soltas, mas pessoas com menos visibilidade seguem detidas pela polícia. O medo que se tem é que, com essas pessoas, (eles, o governo) queiram ensinar uma lição aos demais.

Enquanto eu estava acompanhando as manifestações - e conto isso na matéria que escrevi (para o jornal Diário de Cuba) - estava junto comigo o jornalista Maykel González Vivero. Ele foi detido, mas foi solto no dia seguinte. O governo está tendo certo cuidado com quem tem mais visibilidade, porque não é conveniente ter pessoas notórias presas.

O problema é com essas pessoas que são parte da sociedade cubana, mas são nomes desconhecidos da imprensa, de ONGs e de outros ativistas. Há um rapaz de 17 anos, apenas um dos casos que nós conhecemos, chamado Marcos Antonio Pérez, que está detido, mas ninguém sabe onde ele está. Ligamos para todos os lugares, mas não o encontramos. E como esse, há milhares de casos.

Há vários jovens que saíram às ruas e que foram presos, porque a polícia estava prendendo ao azar. Era mais ou menos como se fosse a Festa de San Fermin: saíram os touros, e quem não saiu da frente, levou uma chifrada.

Em Havana, onde eu estou, o que tenho visto nas ruas são grandes movimentações policiais e caixas de som ligadas, tocando músicas que, supostamente, são símbolos da revolução (de 1959).

O clima na cidade é de uma aparente calma tensa. O presidente (Miguel) Díaz-Canel deu uma ordem praticamente de que se forme uma guerra civil…

(Interrompe a fala por alguns instantes)

Desculpe, agora mesmo está passando uma patrulha perto de onde estou.

(Balbucia algumas palavras enquanto caminha, antes de retomar a fala)

Há medo. Não posso dizer que agora está acontecendo algo em um lugar específico, mas o que incomoda agora é esse clima de incerteza, que ninguém sabe o que vai acontecer. Eu passei por algumas partes da cidade de bicicleta, e quando você anda pela cidade, escuta os comentários das pessoas, e o que posso dizer é que há um descontentamento popular com o sistema grande.

Esse pedido do presidente para que os revolucionários “saiam a defender a revolução”… Olhe, não posso ser categórico, mas ninguém vai sair a defender…

(Interrompe a fala mais uma vez)

Estadão  - Acho que a ligação está falhando, não estou ouvindo... 

É que me disseram algo sobre o local abaixo de onde estou.

(Retoma o relato)

Outra estratégia do sistema é usar paramilitares, pessoas vestidas de civis e armadas com paus, que aqui chamados de “brigadas de resposta rápida”, e essas pessoas têm o objetivo de dissimular, dizer que são o povo fiel à revolução, e atacar aos próprios cidadãos. 

O que Díaz-Canel está incitando  é a uma guerra civil entre cubanos, onde está mandando uma parte da população reprimir a todos que não estejam de acordo com o socialismo, todos que não estejam de acordo com o sistema. Uma parte da população que não tem poder para reagir.

Não se pode dizer que há um líder que seja o rosto dos protestos. Isso é um fenômeno que está acontecendo de maneira espontânea, como normalmente acontecem esses tipos de fenômeno em diferentes momentos históricos. É como um anúncio de que o povo se cansou e está em busca de liberdade. Não temos comida, não temos medicamentos, não temos dinheiro e há inflação. É isso que está acontecendo.

Gerardo Páez - Engenheiro agroindustrial e ativista pelos direitos humanos - Artemisa

Nas primeiras 48 horas estivemos totalmente incomunicáveis. Quando começaram os protestos em Artemisa, uma hora depois já haviam suspendido o serviço de internet. Algumas pessoas conseguiram começar a transmitir ao vivo o que estava acontecendo, até cortarem o serviço.

Daí em diante, ficamos 48 horas sem conexão, e fomos buscando algumas alternativas, como utilizar uma VPN, o que nos permitia usar internet por um tempo determinado, até a conexão cair de novo.

Outra via foi fazer chamadas diretas ao exterior, principalmente aos Estados Unidos, para saber o que estava acontecendo em outras províncias aqui de Cuba. Lá, que é para onde migra a maioria dos nossos compatriotas, eles estão melhor informados do que nós, têm informação em primeira mão, e nos facilitam alguns elementos do que estava acontecendo em várias províncias.

As tropas especiais, ou boinas-negras, como os conhecemos aqui, estão patrulhando as ruas de dia e de noite, fazendo-se sentir, mostrando sua presença para amedrontar nossa população e gerar certa sensação de pânico, de ambiente repressivo. 

A polícia nacional também se encontra em qualquer esquina do município, parando a qualquer cidadão, e multando  a todos - de forma justificada ou não - também para mostrar que o aparato repressivo do Estado está nas ruas de maneira constante.

O que começou como uma marcha pacífica foi gerando outro tipo de comportamento por parte dos manifestantes, pois a polícia instigou. A polícia foi a primeira a agredir, inclusive usando meios baixos, como quando direcionaram a manifestação até a unidade de polícia intencionalmente.  Lá houve uma grande confusão, e foi o golpe mais duro que recebemos. 

Hoje, temos vários jovens em estado grave, inclusive menores de idade. Um garoto teve as costelas quebradas, o que provocou uma perfuração no pulmão. Minha vizinha está internada pela quantidade de golpes desferidos por um boina negra. Isso aconteceu na minha presença, eu estava lá.

Eu acredito que as manifestações vão se repetir, porque não se visualiza nenhuma melhoria em curto, médio ou longo prazo, principalmente economicamente, que é o que mais está maltratando nossa população.

Um dos fatores que levou às manifestações foram os apagões. Eles diminuíram por 48 horas, mas hoje, em Artemisa, uma parte do município amanheceu sem energia, o que já gerou um mal-estar.  Além disso, há a carência de alimento e o sistema precário que temos em relação à pandemia, que não tem medicamento e nem capacidade para receber os pacientes que deram positivo.

Digo isso porque faz uma hora que eu e minha filha de 14 anos testamos positivo e nos disseram que podíamos voltar a nossa casa, que entre hoje e amanhã viriam nos buscar em casa, a depender da capacidade dos centros de isolamento.

Isso gera muita ansiedade,preocupação e descontentamento na sociedade. Por isso eu creio que as manifestações vão continuar de maneira periódica em vários lugares da ilha, até que o regime tenha que tomar ações profundas e sentar e dialogar.

A população cubana crê que se pararmos de ir às ruas, estaria sendo dada uma nova oportunidade ao regime para coordenar suas ações, buscar uma maneira de tornar mais efetivo o seu sistema repressivo. É quase um consenso entre a maioria dos cubanos não deixar as ruas, apesar da violenta repressão que sofremos, porque se deixarmos, o regime vai se sentir empoderado.

Eduardo Clavel Rizo - Poeta - Santiago

Eu trabalho com uma organização chamada Civil Rights Defender, em parceria com uma organização cubana, e o que fazemos basicamente é monitorar e documentar os casos de violação aos direitos humanos no país.  Quando começou a movimentação (no domingo), não passaram nem 30 minutos e a segurança do Estado já estava na esquina da minha casa, com a intenção de impedir que eu saísse e mobilizasse as pessoas que conheço. E ali ficaram até a manifestação ser sufocada. Isso aconteceu também com muitos opositores, não foi um caso isolado.

Falam que os revolucionários tomaram às ruas, mas, tanto pelas imagens, quanto pelo que vimos, esses "revolucionários" são pessoas do meio militar, vestidos de civis, que receberam paus e tacos para golpear as pessoas. Não são o povo. As pessoas do povo que não são contrárias ao governo estão em suas casas e não querem sair. Inclusive partidários deles, fiéis seguidores da doutrina socialista há muitos anos, não saem de suas casas, porque não querem esse problema para eles.

Basicamente, o governo tem reprimido bastante. Há muitas pessoas detidas, e agora que estamos sabendo a quantidade real, porque todos estávamos incomunicáveis. Não sabíamos o que estava se passando, mas agora com a volta da internet nos demos conta de que faltam muitas pessoas, e que não há informação sobre eles.

Os familiares têm ido às unidades de polícia perguntando por eles, e o que dizem é que não estão lá. Então o que se faz é reputá-los como desaparecidos, porque as pessoas sabem que eles estavam nas manifestações, têm testemunhos de que foram detidos pela polícia, e agora a polícia diz que não sabem onde eles estão. Então estamos reputando todos eles como desaparecidos.

O termo desaparecido aqui talvez não seja tão extremo como foi empregado em ditaduras como a brasileira, em que os desaparecidos nunca foram encontrados. Aqui há um procedimento jurídico que, em casos em que alguém foi detido e não se sabe o paradeiro, apresenta-se um habeas corpus para identificar onde essas pessoas estão. Não chega a ser como as desaparições forçadas que havia nas ditaduras latinoamericanas.

A questão da comunicação foi difícil, porque nós que já temos alguma trajetória na oposição tivemos nossas linhas canceladas. Tentamos utilizar outros números, mas isso influenciou para que o movimento não alcançasse tudo que queria alcançar, que era permanecer nas ruas o maior tempo possível para forçar o regime a negociar, sentar em uma mesa de diálogo, negociar e chegar a um acordo.

Em 1994, o que ocorreu foi um fenômeno localizado em Havana (Malecón). O (movimento) de domingo alcançou várias províncias do país. Se não chegou onde tinha que chegar é porque cortaram a comunicação. Mas eu não creio que isso acabe por aqui, pelo simples fato de que o que gerou os protestos seguem aí.

Não é só uma questão política, é também uma questão sanitária, é também uma questão de alimentação, porque diariamente há fome. Há uma crise financeira que gerou um colapso econômico e criou uma hiperinflação. O dinheiro não é suficiente para comprar os insumos básicos. 

Agora a situação está relativamente calma, mas os argumentos que o povo tem para protestar ainda estão presentes e o governo não tem como solucionar. O governo só sabe fazer discursos vazios, que são os mesmos que ouvimos há 62 anos. Não há nada diferente. Não há um consenso para que se tente chegar a um diálogo, para escutar a sociedade e os problemas reais que tem a sociedade.

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