Manifestnates preparam protestos múltiplos no Egito

Manifestações são reações a discurso do presidente Hosni Mubarak que disse que não irá renunciar.

BBC Brasil, BBC

11 de fevereiro de 2011 | 09h15

Militares cercaram prédios estatais, mas não coibiram ativistas

O comando das Forças Armadas no Egito disse que encerrará o estado de emergência que vigora no país há 30 anos assim que a "situação atual tiver terminada".

Em um comunicado divulgado após uma reunião na manhã desta sexta-feira, o Conselho Supremo do Exército disse que endossava a transferência de poderes anunciada pelo presidente Hosni Mubarak ao vice-presidente Omar Suleiman.

As Forças Armadas dizem ainda que garantiriam eleições livres e justas, mudanças constitucionais e a "proteção da nação".

A revogação do estado de emergência era uma das principais reivindicações da oposição.

O correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne disse que os protestos de massa marcados para esta sexta-feira podem resultar em confrontos entre manifestantes e o Exército.

Para Leyne, este seria o momento mais potencialmente perigoso até agora, em duas semanas de protestos.

A reunião do Conselho Supremo do Exército foi presidida pelo ministro da Defesa, general Hussein Tantawi.

Imagens da reunião exibidas pela TV oficial egípcia mostraram Tantawi comandando o encontro sentado à mesa com dezenas de outros oficiais, mas sem a presença de Mubarak ou Suleman.

O comunicado do Conselho foi transmitido pela TV estatal egípcia, enquanto ativistas se reuniam em diversos pontos da capital, Cairo, para novos protestos contra o presidente Hosni Mubarak.

Desde a madrugada desta sexta-feira, manifestantes começaram a se reunir em volta de sedes do governo, do Parlamento e da TV estatal, entre outros locais. Centenas de manifestantes formaram uma barricada humana em torno do edifício que abriga as TVs e rádios estatais para impedir a entrada de funcionários.

Soldados com tanques que vigiavam a rua da TV estatal não impediram a chegada de cerca de 2 mil manifestantes que se aglomeraram perto do local.

Os organizadores pretendem realizar protestos em seis locais diferentes, além da praça Tahrir, que tem concentrado os maiores protestos contra o governo - e que também foi palco de confrontos violentos entre manifestantes pró e anti-Mubarak.

Reação

Na madrugada de sexta-feira, milhares de pessoas reunidas na praça Tahrir manifestaram, aos gritos de "abaixo Mubarak" e "vá embora", sua revolta contra um pronunciamento feito por Mubarak em rede nacional na quinta-feira à noite.

Mubarak afirmou que segue com a ''responsabilidade de proteger a Constituição e garantir os interesses do povo'' e que permanecerá no poder. Ele disse ainda que transferirá parte de seus poderes a seu vice, Omar Suleiman, mas não especificou quais poderes.

A Constituição do Egito permite que o presidente transfira suas principais funções se for incapaz de exercê-las ''devido a quaisquer obtáculos temporários''.

Após o discurso, os manifestantes na praça Tahrir mostraram solas dos sapatos (ato considerado ofensivo no mundo árabe), em sinal de repulsa ao pronunciamento. Em seguida, milhares de pessoas começaram a se dirigir até o palácio presidencial.

'Presidente de fato'

Ainda que Mubarak não tenha renunciado, o seu status à frente do governo do país não está claro.

Na quinta-feira, em uma entrevista à rede de TV CNN pouco após o pronunciamento, o embaixador do Egito nos Estados Unidos, Sameh Shoukry, disse que o presidente egípcio transferiu toda a autoridade para o vice-presidente do país, Omar Suleiman, o ex-chefe do serviço de inteligência do Egito.

Manifestantes se decepcionaram com o discurso de Mubarak

Segundo o representante do Egito em Washington, Mubarak ''permanece sendo o chefe de Estado de direito'', ao passo que Suleiman ''é o presidente de fato''.

"O presidente Mubarak transferiu toda a autoridade para o vice-presidente''. O embaixador acrescentou que ''Suleiman agora está exercendo toda a autoridade do presidente, como exige a Constituição''.

Um dos líderes da oposição egípcia, Mohamed ElBaradei, Nobel da Paz e ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), disse, na quinta-feira, em seu perfil no microblog Twitter, que ''o Egito vai explodir'' e que ''o Exército deve salvar o país imediatamente''.

Ele ainda acrescentou: ''Eu peço que o Exército egípcio interfira imediatamente para resgatar o Egito. A credibilidade do Exército está em jogo''.

O grupo Irmandade Muçulmana qualificou o dicurso de Mubarak como sendo ''uma farsa''. ''Temos um presidente ilegítimo passando o poder para um vice-presidente ilegítimo'', afirmou Mohammed Abbas, que representa a ala jovem da Irmandade Muçulmana. ''Nós rejeitamos este discurso e pedimos a Mubarak que renuncie e que transfira seus poderes para o Exército''.

''Existe uma disputa de poder entre Mubarak e o Exército. Os egípcios confiam no Exército'', acrescentou.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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