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Manobra de Cristina atraiu não kirchneristas

Os Kirchners governaram por 12 anos e meio, e o país não se converteu numa Venezuela

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2019 | 05h20

Nas eleições primárias há uma semana, a chapa de Cristina Kirchner derrotou a do presidente Mauricio Macri por 47% a 32%. A margem torna a líder da oposição franca favorita a voltar à Casa Rosada, desta vez na condição de vice de seu ex-chefe de gabinete Alberto Fernández.

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Pela lei argentina, 45% dos votos são suficientes para se eleger no primeiro turno, marcado para 27 de outubro, assim como 40%, se a diferença sobre o segundo colocado ultrapassar 10 pontos porcentuais. A Argentina é um dos poucos países do mundo, ao lado do Brasil, em que o voto é obrigatório, e todos os cidadãos com mais de 18 anos tiveram de comparecer às primárias.

O resultado mostra o quanto foi acertada a manobra de Cristina de se apresentar como vice ao lado de um peronista capaz de atrair votos dos não kirchneristas no interior dessa ampla e tradicional corrente da esquerda e do centro, precursora do populismo.

Foi uma forma de driblar a enorme rejeição enfrentada por Cristina, alvo de processos por corrupção e obstrução da Justiça, que só não resultaram na sua prisão por sua imunidade de senadora. Sem contar a desastrosa política econômica dela e de seu marido, Néstor Kirchner, que levou a Argentina à atual combinação de inflação e recessão. Que Macri não consiga superar uma rival com um passivo tão grande diz mais sobre a pesada herança que ela lhe deixou do que sobre os erros na condução da política econômica, que também ocorreram.

Voto de confiança

Cobri as eleições parlamentares de 2017, e ali os argentinos já demonstravam que sua paciência estava se esgotando, embora ainda tenham dado um voto de confiança ao governo. Apesar dos eventuais erros no varejo, sobretudo em relação à taxa de juros, Macri adotou o rumo correto. Os resultados, nesses casos, sempre demoram. Pergunte aos gregos, que acabam de devolver o poder à centro-direita, após compreender que não há caminho sustentável que não o do amargo ajuste das contas públicas. A conta do populismo demora, mas chega.

Depois das primárias, o presidente Jair Bolsonaro declarou, no Piauí: “Olhem o que está acontecendo na Argentina. A Argentina está mergulhando no caos. A Argentina começa a trilhar o rumo da Venezuela, porque nas primárias bandidos de esquerda começaram a voltar ao poder”. Mais tarde, ele tuitou: “O Rio Grande do Sul corre o risco, pela volta da esquerda na Argentina, de passar pelo mesmo sofrimento de Roraima em relação à Venezuela”.

É um exagero. Cristina e Néstor Kirchner governaram por 12 anos e meio, e o país não se converteu numa Venezuela, apesar da combinação de má gestão, corrupção e maquiagem dos índices. O estrago causado é comparável ao que o PT produziu no Brasil ao longo de 13 anos e meio.

Fernández respondeu em um programa de TV: “O Brasil sempre vai ser nosso principal parceiro. Bolsonaro é uma conjuntura na vida do Brasil como Macri na vida da Argentina. Respeitarei a institucionalidade brasileira. Celebro que Bolsonaro fale mal de mim. É um racista, um misógino, um violento, um cara que celebra a tortura sobre Dilma Rousseff. O que eu pediria ao presidente Bolsonaro é que deixe Lula livre. Com Bolsonaro não tenho problema de ter problemas”.

Perguntei a Félix Peña, especialista argentino em comércio exterior, se esse tiroteio pode atingir as reformas do Mercosul e o acordo do bloco com a União Europeia. Ele acha que não: “As relações entre Argentina e Brasil são valiosas demais para ambos os países para serem afetadas por situações conjunturais”.

Quanto às resistências de um eventual governo de esquerda na Argentina ao livre-comércio, Peña considera que as diferenças são de “ênfase”, não de “substância”. Ojalá, como se diz em espanhol. Mas, qual o ganho, para um país, em atacar candidatos à presidência de outro país?

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