Manobra saudita sugere capacidade atômica

Mísseis estratégicos comprados da China podem ser equipados com ogivas nucleares por meio de acordo com o Paquistão e em resposta ao Irã

ROBERTO GODOY, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2014 | 07h03

A força dos mísseis estratégicos da Arábia Saudita, formada por um lote de 36 a 60 mísseis chineses CSS-2, pode ganhar capacidade de lançamento de ogivas nucleares. Essa possibilidade é levantada periodicamente desde 2003 pelos serviços de inteligência americanos e europeus. Os artefatos, de média potência - de 1 a 3 megatons -, seriam fornecidos pelo Paquistão.

Há duas semanas, durante os exercícios Espada de Abdullah, as armas, compradas há 30 anos e permanentemente revitalizadas, foram envolvidas pela primeira vez. Na solenidade de encerramento, a Força Real Saudita de Mísseis Estratégicos apresentou duas unidades sobre carretas blindadas de transporte.

No desfile de continência a integrantes da família real Saud Abdulaziz, os vetores de alcance intermediário estavam parcialmente cobertos para ocultar sensores externos e alterações reveladoras de certas tecnologias. A versão utilizada pelos sauditas é a DF-3 com alcance estimado de 3,5 mil quilômetros, levando uma carga de combate de até 2 toneladas.

Armas. A indicação de que os vetores podem ganhar força atômica é resultado de um "acordo não escrito" entre os governos de Islamabad e Riad. Segundo Gary Samore - assessor especial do presidente Barack Obama para assuntos de proliferação nuclear até 2013 -, o entendimento prevê o acesso de técnicos da Arábia Saudita ao conhecimento paquistanês a preço elevado. Samore destaca os pesados investimentos destinados ao Paquistão. "Não será por generosidade desinteressada", afirma.

Simon Henderson, diretor do Washington Institute, alerta para o temor saudita "de um Irã nuclear". "Eles levam isso muito a sério", afirma.

Amos Yadlin, ex-líder da Aman, a agência de inteligência militar de Israel, declarou que a Arábia Saudita fez uma "manobra defensiva". "Se o Irã produzir uma arma nuclear, Riad não vai esperar nem um mês para acionar os acordos que preveem a compra de armas atômicas paquistanesas", disse Yadlin, que aponta para a revelação das bases sauditas de mísseis em Al-Sulayyil e Al-Jufayyr. Parcialmente subterrâneas, elas passaram por reformas, desde 2009, para dois esquadrões cada, com silos de disparo independentes, abrigo e centro de comando. Todas as edificações são de concreto enrijecido.

O míssil, pronto para disparo, pesa 64 toneladas e mede 21,2 metros. Utiliza combustível líquido. O primeiro modelo entrou em operação em 1977 na China. A configuração de exportação convencional ficou pronta dez anos depois. A Arábia Saudita nunca realizou testes com o equipamento.

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