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Manobras do Hamas

Grupo agora aceita negociar Estado Palestino nas fronteiras de 1967; Israel vê ameaça em situação calamitosa de Gaza

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2017 | 05h00

O presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, reuniu-se com o novo presidente americano, Donald Trump, na Casa Branca. Objetivo do encontro: resolver o conflito entre palestinos e israelenses. Trata-se de uma grande meta, há anos carimbada como “urgente” em todos os calendários diplomáticos.

Mas desta vez Trump está no meio. E ele, em lugar de uma diplomacia de meios tons, alusões e nuances, como a de Obama, prefere a diplomacia da guerra relâmpago, do “choque e pavor”. Conseguirá fazer andar o carro atolado?

De qualquer modo, o encontro de Washington já teve reflexos antes mesmo de começar.

Antes, lembremos que os palestinos são representados por duas entidades rivais: uma, a Autoridade Palestina, de Mahmoud Abbas, moderada, diplomata, que apara as arestas e busca uma solução para o imbróglio palestino-israelense; outra, o Hamas, que controla o enclave palestino da Faixa de Gaza. Ligado à Irmandade Muçulmana, formado por guerreiros violentos e fanáticos, o Hamas rejeita a própria ideia de dialogar sobre Israel. Aferra-se ao manifesto divulgado em 1988, um ano após sua criação, segundo o qual Israel não existe. Portanto, não se pode negociar com o nada.

Mas eis que, no mesmo dia do encontro de Washington, o Hamas divulgou uma “declaração de princípios” na qual admite a criação de um Estado palestino limitado às fronteiras de 1967. Fica a pergunta: se Israel não existe, como insiste o Hamas há 30 anos, como negociar a respeito?

Para contornar essa objeção, o Hamas afirma em seu texto, divulgado na quarta-feira, que sua luta não é contra “os judeus enquanto comunidade religiosa”, mas apenas contra “o projeto sionista, racista, agressivo, colonialista e expansionista”.

Israel, em declaração divulgada pelo gabinete de Binyamin Netanyahu, não levou a sério a nova posição do Hamas: “O Hamas não apenas prepara a próxima guerra contra Israel, mas encoraja as crianças de Gaza a destruírem nosso país”.

Vê-se no texto do Hamas sobretudo uma ponta de angústia. Na Faixa de Gaza, um dos lugares mais pobres do mundo, o Hamas está cada vez mais isolado. Tem um novo e temível adversário na pessoa do líder egípcio, o marechal Sissi, inimigo jurado da Irmandade Muçulmana da qual o Hamas é uma emanação. O Egito fechou todos os túneis pelos quais a Faixa de Gaza recebia, a partir do vizinho Sinai, armas, munição, petróleo e alimentos.

E o torniquete continua apertando. As relações entre os dois “irmãos inimigos”, Hamas e AP, são calamitosas. Mahmoud Abbas anunciou que a AP não pagará mais as contas de energia da Faixa de Gaza cobradas pela empresa de eletricidade de Israel. Todas as linhas de transmissão do Egito estão cortadas. O desemprego em Gaza é avassalador. E começa a faltar água potável. Seriam essas as causas da mudança de rumo (aparente ou real) do Hamas.

Ao mesmo tempo, Israel sabe bem que o desespero absoluto no qual a Faixa de Gaza está mergulhada pode provocar ações guerreiras alucinadas. Essa situação já foi constatada várias vezes no passado. Assim, militares israelenses de alto escalão preveniram Jerusalém: não se pode excluir uma nova explosão de violência espontânea e suicida – mesmo contra a vontade dos chefes de Gaza acuados pelo desastre. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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