Mantega não revela valor da contribuição do Brasil ao FMI

Objetivo é condicionar a ajuda financeira ao aumento do poder dos países emergentes nas decisões do Fundo

WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h02

A contribuição prometida pelo Brasil ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para o combate à crise será definida até a reunião anual de outubro, em Tóquio, disse ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Isso dependerá do andamento da reforma do sistema de cotas e votos.

Se os Brics indicarem logo quanto vão oferecer para o reforço financeiro da instituição, argumentou o ministro, os governos do mundo rico terão menos interesse em completar a reforma combinada em 2010, parte do processo de redistribuição de poder na organização.

Brasil, Rússia, Índia e África do Sul apoiam a mobilização de novos recursos para a ajuda aos países afetados pela crise, mas combinaram adiar a declaração de suas contribuições.

Nem o valor total da participação do grupo foi estabelecido, segundo ele, embora um vice-ministro russo tenha antecipado na sexta-feira algumas indicações: a China poderia entrar com cerca de US$ 60 bilhões e Rússia e Brasil com algo entre US$ 10 bilhões e US$ 20 bilhões cada. Já foram prometidos aportes de US$ 430 bilhões, segundo anunciou o G-20 (grupo formado pelas maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento) depois de uma reunião ministerial na sexta-feira com participação da diretora-gerente do Fundo, Christine Lagarde.

Os ministros do G-20 reafirmaram em comunicado oficial o compromisso de completar até a próxima reunião anual a reforma de 2010 e de avançar até janeiro de 2013 na revisão de cotas prevista para 2014. A distribuição, segundo o compromisso, "deve refletir melhor o peso relativo dos países membros do FMI na economia mundial".

A declaração atende plenamente às reivindicações do Brasil, admitiu o ministro Mantega. Mas, mesmo assim, ele insistiu em manter reserva sobre a contribuição brasileira para o reforço financeiro do FMI. "O tempo joga a favor dos ricos", disse o ministro para justificar, mais uma vez, o retardamento do anúncio sobre o valor da contribuição brasileira.

Ele falou rapidamente com a imprensa antes de participar, ontem de manhã, da reunião do Comitê Internacional Financeiro e Monetário, o órgão político mais importante do FMI. O comitê, formado por ministros de todas as regiões, define as linhas principais da agenda da instituição.

Da reunião, sempre fechada, participam também, tradicionalmente, dirigentes das principais entidades multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Organização das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad).

O secretário-geral da Unctad, o tailandês Supachai Panitchpakdi, chamou a atenção para os desequilíbrios cambiais e para os problemas causados a alguns países pelos "ventos da valorização". "O Brasil, por exemplo, teve de enfrentar com grandes influxos de capitais especulativos uma rápida valorização real de sua moeda e uma virada de sua conta corrente de um pequeno superávit em 2007 para um déficit de 2,1% do PIB em 2011", lembrou o funcionário.

A Unctad, segundo ele, vem estudando um sistema global de câmbio regulado para prevenir distorções no comércio e para ajudar na estabilização das relações financeiras internacionais. A instituição, disse ele, deve propor um sistema de flutuação cambial regulado, mas não forneceu detalhes.

Com a intervenção do secretário-geral da Unctad, pelo menos uma autoridade internacional mostrou preocupação com o problema da valorização cambial, denunciada repetidamente pelas autoridades brasileiras como consequência da grande emissão de moeda nos países ricos.

A valorização do real encarece os produtos brasileiros em moeda estrangeira e torna a indústria do País menos competitiva. / R.K.

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