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Mantidos no Irã por 444 dias, ex-reféns americanos não querem nada com o recente conflito

Os dias de cativeiro pairam como uma sombra no fundo de suas vidas, retornando em sonhos, ou quando o Irã aparece nas notícias

The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2020 | 08h00

David M. Roeder, coronel aposentado da Força Aérea, estava em casa na semana passada em Pinehurst, Carolina do Norte, quando viu as primeiras notícias na televisão: uma embaixada dos EUA estava sob ataque de manifestantes no Oriente Médio.

“Eu disse: “Oh, lá vamos nós de novo’”, disse Roeder, que estava entre os mais de 50 americanos que foram feitos reféns na Embaixada dos EUA em Teerã em 1979, em uma crise que rompeu relações entre os países e deu início a 40 anos de intensas hostilidades entre Washington e Teerã.

“Há incêndios. Eles estão atacando a embaixada”, disse Roeder, agora com 80 anos. “Isso é déjà vu.”

O mais recente ataque - à embaixada em Bagdá - ocorreu dias antes que um ataque por drone dos EUA matasse um importante comandante iraniano, aumentando rapidamente as tensões na região. Mais tarde, o presidente Donald Trump se referiu à crise dos reféns em um aviso ao Irã para não retaliar, dizendo em um tuíte que os Estados Unidos apontaram 52 pontos iranianos como alvos em potencial para representar os 52 americanos detidos pelo Irã de 1979 a 1981.

A ameaça do presidente trouxe os reféns de volta aos holofotes, quando alguns dizem que sentem que sua provação foi amplamente esquecida pela sociedade americana. Dos 53 reféns, que incluem um outro diplomata, libertado antes, calcula-se que 18 tenham morrido. Os 35 restantes, em idade de aposentadoria, seguiram em frente da melhor maneira possível. Ainda assim, seus 444 dias de cativeiro pairam como uma sombra no fundo de suas vidas, retornando em sonhos, ou quando o Irã aparece nas notícias.

Em entrevistas, vários dos ex-reféns disseram estar surpresos por serem lembrados e relutam em ser levados para uma batalha política violenta.

“Estou de certa forma irritado com isso, embora de uma forma ou de outra, a lembrança deva ser em nossa homenagem”, disse Al Golacinski, ex-oficial de segurança regional da embaixada que agora tem 69 anos e se aposentou em Ponte Vedra Beach, na Flórida. “Não preciso disso.”

"Todos nós seguimos com nossas vidas, aqueles que ainda estão vivos, e há cada vez menos de nós a cada seis meses”, disse Chuck Scott, um coronel aposentado do Exército, de 88 anos, que era comandante da equipe das forças especiais no momento da crise dos reféns. Ele acrescentou: “Não somos mais parte disso”.

Em uma entrevista na MSNBC, outro ex-refém, John Limbert, disse sem rodeios: “Sr. presidente, se o senhor estiver ouvindo, não se incomode por minha conta, porque não quero ter nada a ver com isso.”

Os reféns do Irã - que enfrentaram tortura física e psicológica, incluindo casos de confinamento solitário e execuções simuladas - também tiveram de lutar por suas restituições desde que foram libertados, por causa de um acordo que os impedia de pedir indenização por sua prisão.

Em 2015, o Congresso autorizou pagamentos de até US$ 4,4 milhões: US$ 10 mil por dia de cativeiro, além de um pagamento fixo a cônjuges e filhos. Mas apenas uma pequena parte desse dinheiro foi paga, pois a situação ficou complicada depois que parentes das vítimas do 11 de Setembro solicitaram compensação do mesmo fundo.

Em vez de atraí-los para o conflito atual, alguns dos reféns disseram que queriam que a atenção estivesse voltada para a restituição que eles mereciam. “Por que vocês não vão em frente e nos pagam o dinheiro que foi prometido?”, disse Scott.

V. Thomas Lankford, advogado em Alexandria, Virgínia, que representa muitos dos ex-reféns iranianos e suas famílias, ainda está lutando por pagamento. Ele citou anos de ataques de ansiedade, problemas para dormir e ameaças de suicídio entre ex-reféns.

“Houve um refém que morreu nos últimos dois anos”, disse ele. “Toda noite, sua mulher me dizia, ele chorava enquanto dormia e, de repente, sentava-se e corria como se ainda estivesse em cativeiro.”

“Há um outro muito importante que, toda vez que o Irã se envolve com as notícias de uma maneira importante, ele precisa voltar para receber ajuda institucional”, disse Lankford, acrescentando: “Sob todos os aspectos, eles continuaram sendo vítimas.”

Golacinski, que falou sobre sua experiência ao ter os olhos vendados, algemado e sujeito a uma execução simulada enquanto estava em cativeiro, disse que havia observado de perto os últimos acontecimentos, mas não queria vincular os eventos recentes à crise de 1979.

“O que aconteceu na semana passada não tem nada a ver conosco”, disse ele. “Não é como se estivéssemos esperando esse tempo todo que alguém fosse morto, quase como se fosse em nosso nome. Não é em nosso nome."

Roeder disse que acompanha as notícias recentes quase o tempo todo. O tuíte de Trump que se referia a eles, disse ele, era pelo menos uma evidência de que não haviam sido totalmente esquecidos. 

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“Foi encorajador e de certa forma surpreendente que alguém do governo realmente admitiu que se lembra do que aconteceu conosco”, disse ele.

“Todo mundo parece concordar que o general era um cara mau”, disse ele, referindo-se ao general Qassim Suleimani, comandante iraniano que foi morto. Ainda assim, ele temia pelos iranianos que pudessem ser pegos no conflito. “Essas pessoas são vulneráveis.”

“Eu passei por isso”, acrescentou. “Eu sei o que isso fez com as famílias. Eu sei o que isso fez com o país. Não acredito que queremos que isso aconteça novamente." / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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