Mão de obra chinesa deixou de ser barata

Trabalhadores atuais são jovens, experientes e seletivos

É JORNALISTA, ESCRITORA, MICHELLE DAMMON, LOYALKA, THE NEW YORK TIMES, É JORNALISTA, ESCRITORA, MICHELLE DAMMON, LOYALKA, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h03

Quando o vice-presidente da China, Xi Jinping, visitou a Casa Branca no início do mês, o presidente Barack Obama renovou seus apelos à China para que tenha uma atuação mais leal na economia mundial. O vice-presidente americano, Joe Biden, reforçou suas palavras dizendo a Xi que os dois países só poderão cooperar "se o seu comportamento (da China) for leal".

Mas, embora os subsídios às indústrias, as políticas comerciais, a moeda subvalorizada e a violação das leis de defesa dos direitos de propriedade intelectual continuem constituindo graves problemas para os Estados Unidos, há ao menos uma área na qual aparentemente esta situação está sendo corrigida: a mão de obra, que tornou as fábricas da China praticamente imbatíveis, deixou de ser barata.

A China sofre neste momento uma escassez esporádica de trabalhadores que acarretou um aumento dos custos da mão de obra, outrora entre os mais baixos do mundo. Esta tendência tornou-se particularmente evidente depois do ano-novo chinês, quando mais de 100 milhões de migrantes saídos das áreas rurais voltaram para o campo a fim de passar o maior feriado do ano com a família. Persuadir estes mesmos migrantes a reintegrar a mão de obra urbana vem sendo uma dificuldade cada vez maior.

Este ano não foi exceção. Embora quase duas semanas tenham se passado desde o Festival da Lanterna, que encerra oficialmente o feriado de 15 dias, em toda a China as cidades ainda enfrentam grave escassez de trabalhadores. Para atrair nova mão de obra e segurar a antiga, algumas companhias distribuem a seus empregados consideráveis bonificações para que voltem a trabalhar, enquanto outras oferecem dinheiro a cada novo empregado que trouxerem com eles. Em muitos setores, aumentos salariais de 10% a 30% tornaram-se a norma.

Mas, apesar de tudo isso, cidades como Pequim, Shenzhen e Cantão ainda precisam de centenas de milhares de trabalhadores migrantes. Na Província de Shandong um terço da sua força de trabalho migrante não regressou, e a Província de Hubei informa a perda de mais de 600 mil trabalhadores. Na semana passada, o governo chinês divulgou um relatório mostrando que a escassez de mão de obra deste ano, após as festividades do ano-novo, não só é muito maior do que no passado, como também a mais prolongada.

Crescimento. Numerosos fatores influem nos crescentes problemas da China com a sua força de trabalho. Até agora, o país conseguiu alcançar seu espantoso crescimento econômico graças à migração de um enorme exército de camponeses para atividades não agrícolas. Nos últimos anos, os economistas advertiram que a China pode estar chegando ao chamado Lewis Turning Point - o estágio em que a mão de obra excedente das zonas rurais (com sua oferta praticamente ilimitada) efetivamente secou e os salários começam a crescer rapidamente.

Ao mesmo tempo, a China vem registrando um aumento persistente do número de idosos, a ponto de, segundo as previsões, até 2020 a nação vir a ter mais de 200 milhões de pessoas acima dos 60 anos. Além disso, o aumento do custo de vida na China urbana, associado à acentuada melhoria das condições de vida nas áreas rurais, está encorajando trabalhadores migrantes a procurar ocupações mais perto da sua família.

Além da escassez de trabalhadores disponíveis, os problemas da China são exacerbados por uma mudança da qualidade e do caráter de sua mão de obra. Para a geração mais velha, há muito pouco que uma fábrica ou um chefe possa determinar que seja difícil demais para enfrentar, considerando que ela testemunhou ou cresceu com pais que testemunharam os tempos difíceis da Revolução Comunista, da coletivização, do desastroso Grande Salto para Frente e da Revolução Cultural. Seus integrantes são os pioneiros do modelo de mão de obra migrante do qual a indústria chinesa passou a depender: longas horas em condições péssimas, por uma fração do salário ganho pelos operários nos EUA.

Mas a geração mais nova da China não quer mais suportar essas dificuldades sem claras esperanças de que constituem um meio temporário em vista de um fim mais confortável.

Juventude. Segundo o relatório do governo, nada menos que 70% dos migrantes rurais agora têm menos de 30 anos. Isso significa que eles pertencem à chamada geração pós-80 - um eufemismo chinês para definir os que cresceram durante o renascimento econômico da nação e nunca experimentaram a privação autêntica.

No passado, os trabalhadores migrantes da China agradeciam por não passar fome; hoje eles são experientes e suficientemente seguros a ponto de se tornarem seletivos.

Não surpreende que no dia seguinte à reunião com Xi, Obama visitasse uma fábrica da Master Lock em Milwaukee, onde declarou que chegou o momento de os empregos na indústria regressarem aos EUA. Não faz muito tempo, esta afirmação seria quase impensável, mas agora, graças à elevação dos custos da mão de obra chinesa, os EUA poderão voltar a atuar na arena da indústria mais cedo do que se previa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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