Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Mão de obra estrangeira celebra ‘latinização’ do país

Imigrantes dizem que resistência dos chilenos à chegada de pessoas de outros países do continente diminuiu

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial / Santiago, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

SANTIAGO - Um efeito colateral mais sutil do descrédito institucional mostrado por pesquisas no Chile está na relação entre a população nativa de um país que aparece entre os menos corruptos da América Latina e os imigrantes que buscaram uma economia mais estável, em parte em razão dessa transparência. 

Paradoxalmente, os estrangeiros associam a queda na autoestima dos chilenos a uma espécie de “latinização” que diminuiu a percepção de casos discriminatórios.

“Quando cheguei aqui, aguentei muita ofensa por ter a pele escura. Um dia reagi e perguntei: ‘Qual era o problema’? Mas, desde o escândalo com o filho da presidente, os chilenos estão mais envergonhados. Estão se sentindo menos americanos”, opina o mestre de obras colombiano Jumbler Chantri Guzman, de 37 anos. Ele era um entre centenas de imigrantes que no fim de fevereiro organizavam uma marcha no centro de Santiago por uma legalização migratória. 

Havia representantes de pelo menos cinco nacionalidades (colombianos, peruanos, equatorianos, dominicanos e bolivianos). O casal de dominicanos, Edwin Capuzano e Liselo Friasco, lamentava a onda de notícias envolvendo corrupção, por desviar o foco de suas reivindicações. “Trabalhamos muito mais por estar ilegais, mas a economia ainda é das que funcionam melhor na região”, disse Capuzano, que trabalha como pedreiro.

Enrolado em uma bandeira da Venezuela, Andres Calvo dizia ter sido demitido no dia em que pediu para trabalhar o mesmo número de horas dos colegas chilenos. “Não é um país como o Brasil ou a Argentina, acostumados a receber imigrantes. No início, vimos muito preconceito, mas agora as pessoas daqui agora sentem o mesmo que o povo dos demais países, a corrupção do governo. Notei claramente a mudança no tratamento. De alguma maneira, já tínhamos os anticorpos que faltavam aos chilenos”, diz. 

O sociólogo e analista político Eugenio Tironi, que trabalhou na campanha do referendo pela saída de Augusto Pinochet do poder em 1988, diz ter percebido a queda na autoestima dos chilenos, mas também uma reação que justifica a fama de um país com pouca corrupção.

Segundo o último levantamento da organização Transparência Internacional, é o segundo na América do Sul, atrás do Uruguai – no levantamento anterior, ambos estavam empatados em primeiro. “Sentimos que perdemos nossa virgindade. A noção de ser um modelo para a América Latina se enfraqueceu.”

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