Marcado por suspeitas, líder colorado teve rápida ascensão

Investigação dos EUA coloca Cartes no centro de esquema de lavagem de dinheiro e contrabando de cigarros

O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h07

"Narco-coloradismo" foi o termo que o presidente uruguaio, José "Pepe" Mujica, usou para definir o fenômeno político Horacio Cartes, eleito ontem presidente do Paraguai. Uma investigação dos EUA colocou-o, em 2010, no epicentro de um esquema internacional de lavagem de dinheiro, segundo documentos divulgados pelo WikiLeaks. E a gigante do tabaco Souza Cruz calcula que 1 em cada 13 cigarros fumados no Brasil sai do contrabando de Cartes.

O homem que recobrou a histórica hegemonia dos colorados sobre o Paraguai nega todas as acusações. Tampouco assume a culpa por um avião monomotor - carregado com 20 kg cocaína e mais de 300 kg de maconha - apreendido pela política antidroga paraguaia numa de suas propriedades, em 2000.

Segundo seus assessores, a aeronave fez um pouso forçado no local e ele não tem relação com a história.

Externamente e entre setores da classe média da sociedade paraguaia, Cartes é tido como a personificação do que há de pior no Paraguai. Mas, no tradicional filão eleitoral do Partido Colorado, os pobres que dependem de caridade do Estado, essas acusações têm apelo limitado - ou quase nulo.

"Ser colorado é uma religião, somos fanáticos. Se escolheram Cartes, é com ele que vamos", explicou Blanca Oviedo, de 42 anos, pouco depois de votar. "Todos são ladrões neste país. Ou você acha que os liberais são bonzinhos? Cartes fez um império de empresas, então pode nos governar bem."

No palanque em um dia de campanha na semana passada, Cartes falou mal, rouco, enquanto cambaleava de cansaço com o microfone na mão, a camisa para fora da calça. Apesar do reggaeton e da cumbia que chacoalhavam os militantes colorados, não dançou.

Fez sucesso no Paraguai uma série de vídeos no YouTube que o comparam ao humorista mexicano Cantinflas, capaz de falar por horas sobre qualquer assunto, sem dizer absolutamente nada. Mesmo assim, Cartes atraiu em seus comícios uma multidão muito maior do que seu rival derrotado, Efraín Alegre, do Partido Liberal.

O empresário, de 56 anos, é um novato entre os colorados: filiou-se em 2009 e, imediatamente, pulou para o primeiro escalão da legenda, desgastada após a eleição do ex-bispo Fernando Lugo. Em janeiro de 2011, o partido anulou uma regra de seu regimento interno que previa um mínimo de 10 anos de militância para ser candidato à presidência. Em sua ficha de inscrição na legenda, Cartes disse que nunca havia votado - ontem, portanto, teria sido sua estreia não só como candidato, mas como eleitor.

Contrabando. Além de ter 25 empresas, o novo presidente do Paraguai é dono da equipe de futebol Libertad, que disputou a Copa Libertadores da América. Em 1985, chegou a ser preso, acusado ter faturado milhões ao se aproveitar de uma política de câmbio favorável para importação de insumos agrícolas. Nunca foi condenado em última instância.

A Souza Cruz entregou no ano passado uma demanda à chancelaria paraguaia na qual acusava Cartes de ser responsável por mais de 40% dos cigarros contrabandeados no Brasil. Estima-se que suas empresas produzam três vezes a quantidade de cigarros consumida no Paraguai. Um relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pirataria da Câmara de Deputados, de 2004, o identificava como um dos maiores contrabandistas da região. / R.S.

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