Marcas étnicas são sentenças de morte

Cicatrizes típicas identificam os nuer como alvos no conflito que já matou dezenas de milhares

ADRIANA CARRANCA , ENVIADA ESPECIAL / JUBA , O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2014 | 02h05

Koal Ter, de 30 anos, tem marcada no rosto a etnia nuer: cicatrizes de seis linhas horizontais paralelas entalhadas em sua pele com uma navalha. A marca simboliza a iniciação dos homens na vida adulta, mas, num país profundamente dividido por desavenças étnicas como o Sudão do Sul, também faz dele um alvo. "Se você tem as marcas, eles simplesmente te matam",disse, referindo-se às forças leais ao presidente Salva Kiir, da etnia dinka.

Os cristãos sul-sudaneses, que enfrentaram por duas décadas uma das mais sangrentas guerras da África contra norte muçulmano pela independência, mergulham agora em um novo conflito civil que já deixou dezenas de milhares de mortos desde dezembro.

Após um confronto entre guardas presidenciais das duas etnias em Juba, soldados dinka iniciaram buscas nas casas de bairros predominantemente nuer na periferia da capital. Estavam à procura de homens marcados como Ter. Ele estava em sua casa, em Gudele, quando ouviu tiros. Em minutos, os militares chegaram. "Eles reuniram os homens, eu acho que nós éramos uns duzentos, e nos colocaram em uma única sala do posto policial. Diziam que estavam ali para nos proteger do fogo cruzado, mas nós sabíamos que alguma coisa estava muito errada", disse. "Horas depois, eles começaram a atirar em todos nós."

Ter e o irmão, Gatluak Duong, são 2 dos 12 homens que conseguiram sobreviver ao massacre protegendo-se sob uma pilha de corpos. Calculam ter ficado ali por dois dias. "Quando saímos, estavam todos mortos, todos os nossos vizinhos e parentes, todos nuer. Nós ficamos dois dias naquela sala com os mortos, sem comida nem água - nos matariam se percebessem que estávamos vivos."

Ter e Duong, assim como 28 mil pessoas das tribos nuer, buscaram refúgio na base da ONU na capital, Juba. Suas mulheres e filhos estão em Upper Nile, onde os rebeldes disputam com os soldados leais a Kiir o controle de Malakal.

"Os soldados chegavam perguntando: 'in choli?' (qual é o seu nome, em dinka) e quem não respondia, era baleado", disse o jovem Tue Tap Nguth, de 20 anos, sobre o que testemunhou em Ghaeda, outro bairro nuer na periferia de Juba.

Organizações humanitárias, como a Human Rights Watch, acusam o governo de fazer uma limpeza étnica em áreas nuer, mas apontam violações contra civis cometidas por ambos os lados do conflito. Por duas décadas, os sulistas forjaram uma identidade nacional na luta pela independência contra o norte, mas as divisões sempre existiram.

"Mesmo depois da independência, não houve praticamente nenhuma tentativa real de construir um Exército nacional. No lugar disso, comandantes regionais e governantes organizaram suas próprias milícias. Todas as altas autoridades, até Salva Kiir, têm forças privadas de defesa", disse a antropóloga Carol Berger, que viveu por mais de uma década no Suão do Sul e se especializou no Exército Popular de Libertação do Sudão. "O Exército de Kiir não estava se tornando mais profissional, como queria afirmar a comunidade internacional em apoio ao presidente, mas apenas maior, porque todos queriam estar na folha de pagamento. Nunca houve uma integração real entre soldados dinkas e nuers."

A nomeação de Riek Machar como vice-presidente pretendia amenizar as tensões tribais, mas, segundo a antropóloga, o governo de coalizão nunca foi real. "(Riek) Machar operava um governo paralelo", disse. Carol não vê o fim do conflito no curto prazo. "Machar acredita que os nuer deveriam governar o país, assim como Kiir - e ambos acreditam que o custo de um número enorme de vidas é justificável, porque essa é a psicologia deles. Nós temos de nos lembrar que os líderes que ocuparam altos cargos políticos no Sudão do Sul são ex-rebeldes que passaram mais de 20 anos no campo de batalha, escondidos no mato. Você tem três gerações de homens que nunca tiveram nenhuma educação, não conhecem nada alem da guerra. Se a comunidade internacional não fizer nada para educar e humanizar esses homens, que gastaram todo esse tempo usando uniforme e manuseando armas, você não vai conseguir quebrar o ciclo de violência."

Os rumores sobre novos conflitos nos arredores de Juba não tinham ainda se espalhado quando a organização para a qual Gatlwak Kuol, de 28 anos, trabalha o mandou em missão à capital. Dois amigos da etnia dinka lhe ofereceram um refrigerante na calçada da frente, em um dos camelôs improvisados em casebres de zinco onde floresce o comércio na cidade. "Fazia muito calor e não vi problema em aceitar o convite. Eu os conhecia de longa data. Mas, assim que atravessamos a rua, eles começaram a falar em dinka, fizeram um telefonema e, logo depois três homens chegaram, dois deles usando uniformes militares", relatou.

Kuol ofereceu seu lugar para um deles sentarem. Mas, antes que pudesse entender o que estava acontecendo, um deles o golpeou com um facão, atingindo seu rosto. Ele desmaiou antes mesmo de os homens começarem a espancá-lo. Quando acordou no hospital, três dias depois, mais de 500 homens, mulheres e crianças, predominantemente da etnia nuer tinham sido mortos nos arredores de Juba e o país mergulhara em uma nova guerra civil.

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