Marcha da Vida na Polônia lembra vítimas do Holocausto

Milhares percorrem distância entre os campos de Birkenau e Auschwitz

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

02 de maio de 2008 | 00h00

"Ouvir hoje um coral de japoneses cantar uma canção que nós cantávamos nos trens, quando percorríamos os trilhos da morte, só pode ser um milagre." As palavras são do cientista judeu Feliz Zandman. Mas ecoavam entre as 20 mil pessoas que lotaram na tarde de ontem o complexo Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia - o maior campo de concentração nazista, onde mais de 1,7 milhão de judeus foram executados na 2ª Guerra -, para celebrar os 20 anos da Marcha da Vida e relembrar os 63 anos da liberação do campo pelas tropas aliadas. A cerimônia, que encerrou o percurso de 3 quilômetros entre os campos de Auschwitz e Birkenau, começou às 14 horas e terminou no início da noite, reunindo várias autoridades. Milhares de jovens acompanhavam seus avós sobreviventes e pais na caminhada que relembra os horrores do Holocausto ao mesmo tempo em que celebra a vida. Em uma marcha pela alegria que é percorrida em silêncio, havia mais de 400 brasileiros - na maioria, representantes de vários colégios de São Paulo e do Rio . "Hoje é mesmo um dos dias mais especiais de nossas vidas. Não tínhamos idéia de que íamos nos emocionar tanto", disse o brasileiro Saul Patrick, de 16 anos. "Quando vejo vocês aqui, chego a sentir menos dor ao pensar na carta que carrego no bolso, muito perto do coração, há mais de um ano. É um recorte de jornal que diz que mais de 80 mil crianças morrem todos os dias de fome no mundo. Eu penso na foto do menino negro morrendo de fome, com um urubu à espreita. Vejo nele o menino que eu fui aqui em Auschwitz e me pergunto: o que aprendemos? Não aprendemos nada! Algumas coisas nunca mudam", lamentou Israel Meir Lau, o principal rabino de Tel-Aviv. No final da cerimônia, um taxista polonês, que levara membros da Juventude Polonesa em Apoio aos Judeus até Auschwitz, interpelou um jovem de Varsóvia, que vestia um casaco comemorativo. "A marcha já acabou. Pode tirar esse casaco, você nem sangue judeu tem. Melhor ser polonês, melhor ser brasileiro", disse o taxista, referindo-se à reportagem do Estado. Como bem disse o rabino, algumas coisas nunca mudam.

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