Edgard Garrido/Reuters
Edgard Garrido/Reuters

Marcha por melhores aposentadorias acaba em confronto em Santiago

Ruas próximas ao Palácio La Moneda tornam-se campo de batalha, em meio a uma nova marcha contra Piñera; polícia dispara bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e fere um observador do órgão de direitos humanos do governo 

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 22h16

As ruas próximas ao Palácio La Moneda transformaram-se em campo de batalha nesta terça-feira, 29, em meio a uma nova marcha multitudinária contra o governo de Sebastián Piñera. A polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra manifestantes que arrancavam com as mãos parte do calçamento para jogar pedras contra os “carabineros”. Um dos feridos pelas balas de borracha foi um observador do Instituto Nacional de Direitos Humanos, órgão do governo.

O ato desta noite em Santiago tinha como exigência melhores aposentadorias. O sistema chileno, que segue o modelo de capitalização individual, é um alvo permanente de tensão no país. Em linhas gerais, o trabalhador dedica 10% de seu salário para uma espécie de poupança. O valor começa a ser devolvido após a aposentadoria pelas chamadas AFPs, instituições privadas que neste período têm liberdade para aplicar o montante.

Hoje, milhares de pessoas, principalmente jovens, carregavam cartazes com a inscrição “NO+AFP”. Alguns usavam lenços com esse slogan sobre a boca e o nariz. Os trapos eram umedecidos com água e bicarbonato para atenuar os efeitos do gás lacrimogêneo e do spray de pimenta. Muitos comiam limões vendidos a 100 pesos (R$ 0,55), com a mesma finalidade.

Parte dos manifestantes tentou pela primeira vez marchar da Plaza Itália, centro da mobilização, até o palácio presidencial, a dois quilômetros. A polícia usou jatos d’água que levavam a multidão a correr pelas ruelas perpendiculares à Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, em que fica La Moneda. Houve registros de saque e um centro comercial foi incendiado.

“Temos muito o que mudar neste país. As AFP são uma delas”, disse o engenheiro civil Roberto Sánchez, de 48 anos, que fazia o vaivém em uma cadeira de rodas. “Estou aqui porque recebi um balaço da polícia nos anos 80, quando ainda governava Pinochet.”

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Parte da revolta chilena se deve ao fato de que algumas aposentadorias chegam a ser de 20% do que o trabalhador recebia ao se aposentar. As mulheres têm ainda mais razão para estarem insatisfeitas, já que recebem quase metade da pensão de um homem com carreira similar. Um trabalhador médio do sexo masculino recebe 52% de seu último salário, em média, no Chile. Uma mulher ganha 29%.

“Elas são mais prejudicadas, porque deixam de contribuir no período em que têm filhos e porque vivem mais anos em média”, afirma Eduardo Engel, professor da Universidade do Chile e diretor do centro de estudos Espaço Público. Engel é conhecido por ter uma das visões mais equilibradas em um tema altamente controvertido. 

Ele avalia que a revolta é alimentada principalmente por uma classe média que não foi contemplada por medidas mitigadoras dessas distorções, ações tomadas por Michelle Bachelet em seu último mandato. Essa ações permitiram que os 20% mais pobres, por exemplo, recebam 110% do salário que tinham ao se aposentar, graças a um bônus. A classe média não recebeu essa compensação. 

 

Os defensores do sistema de capitalização argumentam que as aposentadorias são insuficientes, porque as contribuições de 10% sobre salários são baixas. Ou seja, a solução seria aumentar o que é pago pela população.

O governo Piñera começou a planejar um aumento desta contribuição para 15%. A ideia serviu como detonador em um ambiente de alta insatisfação com um custo de vida de nível europeu, associado a serviços cuja qualidade até supera a de vizinhos latino-americanos, mas que são, em sua maior parte, privados. 

Engel não acredita que o modelo de repartição, adotado pela maior parte dos países, seja uma solução. “A repartição não é sustentável. Acredito que o governo vai recuar no que propôs e terá de ser mais generoso com a população”, avalia. O mais provável é que os 5% a mais de contribuição venham a ser bancados pelos empregadores.

Outro especialista no tema, Jorge Farah Ojeda, integrante da Escola de Trabalho Social da Universidade Católica, acredita que a insatisfação popular obrigará Piñera a renegociar sem abrir mão do sistema de capitalização, instalado no fim da década de 70, durante a ditadura. “Mais da metade dos chilenos recebe menos de 200 mil pesos (R$ 1.090), mas tem um custo de vida europeu. Deveriam receber pelo menos 70% do valor do último salário, mas, em média, se recebe 30%. É uma das razões para essa explosão”, explica. 

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