LNA War Information Division/AFP
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Marechal Haftar diz ter tomado poder na Líbia e Trípoli denuncia 'golpe de Estado'

Líder militar é acusado por seus detratores de querer instalar uma nova ditadura militar na Líbia quase uma década após a queda do regime de Muammar Kadafi

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 16h49

O governo da União Nacional (GNA) da Líbia, com sede em Trípoli, denunciou nesta terça-feira, 28, um novo "golpe de estado" por seu rival, o líder militar do leste líbio, marechal Kalifa Haftar, que garantiu no dia anterior que havia obtido o "mandato do povo" para governar o país. 

Acusado por seus detratores de querer instalar uma nova ditadura militar na Líbia quase uma década após a queda do regime de Muammar Kadafi, Haftar também controla uma parte do sul da região leste do país. 

Em um breve discurso na noite de segunda-feira, o marechal anunciou que o comando geral de seu "exército" autoproclamado aceitava "a vontade do povo e seu mandato", sem especificar das mãos de qual instituição havia recebido tal mandato. 

Também não indicou quais implicações políticas desse mandato, especialmente o papel do Parlamento no leste do país e o governo paralelo designado por esta assembleia, eleita em 2014. 

Haftar se apega à legitimidade deste Parlamento, que teve que se mudar para o leste do país devido ao aumento da violência na capital. 

Na segunda-feira, o marechal também anunciou "o fim do acordo de Sjirat", assinado em Marrocos em 2015 sob a égide da ONU, de onde emanava o GNA, com sede na capital Trípoli.

Em 2017, Haftar já havia anunciado que este acordo de Sjirat "expirou". Em 2014, ele declarou durante um discurso na televisão que iria tomar o poder, mas o anúncio não se concretizou.

"Dissimular fracasso"

Em reação às declarações dos militares, o GNA de Fayez al Sarraj, reconhecido pela ONU, denunciou uma "farsa e um novo golpe de Estado, que se soma a uma série de outros que começaram anos atrás". 

Segundo o GNA, Haftar "até se voltou contra as instâncias políticas paralelas que o apoiavam e que o nomeavam" chefe do exército. 

O GNA afirma que o marechal, que tenta controlar a capital Trípoli desde abril de 2019, quer "dissimular o fracasso de suas milícias e mercenários" e "o fracasso de seu projeto ditatorial". 

"A decisão de Haftar de formalizar seu controle direto sobre o leste é um sinal de seu crescente desespero pelo sucesso do GNA no oeste", avalia o especialista Hamish Kinnear, da Verish Maplecroft, empresa britânica de análise de dados e estudos de risco com presença em quase todo o mundo. 

Fortalecidas pelo apoio da Turquia, as tropas di GNA retiraram duas milícias pró-Haftar de duas cidades estratégicas no oeste do país e cercam Tarhuna, a base de retaguarda mais importante do marechal, localizada a cinquenta quilômetros a sudeste de Trípoli. 

Os Estados Unidos lamentaram que o anúncio de Haftar fosse uma "sugestão" de que mudanças podem ser impostas à estrutura política da Líbia por meio de uma declaração unilateral", declaracou a embaixada dos EUA pelo Twitter.

De Nova York, o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, afirmou que "o acordo político líbio e as instituições que ali surgem são o único marco do governo internacionalmente reconhecido da Líbia". 

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