Margaret Thatcher, a salvadora punk

Como os integrantes do movimento que cresceu com críticas à ela, a Dama de Ferro adorava uma briga; no fim das contas, seu perfil direto fará falta

É PROFESSOR DE HISTÓRIA EM HARVARD, AUTOR DE CIVILIZATION, THE WEST AND THE REST, NIALL, FERGUSON, THE NEW YORK TIMES, É PROFESSOR DE HISTÓRIA EM HARVARD, AUTOR DE CIVILIZATION, THE WEST AND THE REST, NIALL, FERGUSON, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2013 | 02h02

Numa famosa nota de rodapé, o menos Tory (Conservador) dos historiadores, Alan John P. Taylor, famosamente chamou Winston Churchill de "o salvador de seu país". Poucos de minha geração de historiadores concordariam comigo quando reproduzo as palavras de Taylor ao chamar Margaret Thatcher de salvadora de seu país. Mas ela foi - e sua legião de críticos acadêmicos de esquerda foi apenas parte do que ela tentou livrar a Grã-Bretanha.

É fácil esquecer como a Grã-Bretanha estava quando Margareth Thatcher tornou-se primeira-ministra, em maio de 1979. Eu tinha 15 anos e a melhor maneira para me descrever naquela época é como um Tory punk.

Era punk no sentido de que minha alma adolescente havia sido espicaçada pelo single incendiário Anarchy in the UK, do Sex Pistols, lançado pouco depois de Thatcher ficar líder do Partido Conservador, e por seu gloriosamente desrespeitoso God Save the Queen" que veio logo em seguida: "Deus salve a rainha / o regime fascista / Eles fizeram de você um idiota / Bomba H potencial / Deus salve a rainha / Ela não é um ser humano / Não há nenhum futuro no sonho da Inglaterra."

O que fazia eu e meus amigos pularmos feito loucos com essas palavras rosnadas pelo degenerado e pálido Johnny Rotten, era uma intensa frustração. Não pensamos, em momento algum, na rainha como fascista ou desumana. Estávamos apenas total e absolutamente fartos da Grã-Bretanha pós-guerra, pós-Império, pós-Beatles. No fim dos anos 1970 realmente não parecia haver "nenhum futuro no sonho da Inglaterra".

Nada funcionava. Os trens estavam sempre atrasados. Os telefones públicos estavam sempre quebrados (onde eu morava, eles eram usados mais como urinóis). A primeira carta que escrevi a um jornal foi para reclamar dos preços exorbitantes dos sapatos escolares. E, pior de tudo, eram as intermináveis greves. Greves de mineiros de carvão. Greves de estivadores. Greves de gráficos. Greves de coletores de lixo. Greves até de coveiros.

Considerem o seguinte. Só no mês de setembro de 1979, quando os sindicatos tentavam enfraquecer o governo conservador recém-eleito, o número de dias perdidos para a atividade industrial ficou perto de 12 milhões (em setembro do ano passado, foram 8 mil). A taxa de inflação em setembro de 1979 estava pouco abaixo de 17% - abaixo de seu pico, quatro anos antes, de mais de 25%.

Portanto, eu era punk por frustração. Mas era Tory por esperança. Com Time for Truth, outra banda punk da época, The Jam, tivera a franqueza de culpar abertamente o Partido Trabalhista: "Acho que chegou a hora da verdade / E a verdade é que você perdeu, Tio Jimmy" - uma referência ao primeiro-ministro trabalhista James Callaghan, que Thatcher derrubou na eleição de 1979. Callaghan - cujo apelido "Sunny Jim" (Jim Ensolarado ou Radiante) tornou-se uma má piada no "inverno de descontentamento" de 1978 e 79 - nos deprimia.

Em 10 de janeiro de 1979, ao retornar de uma cúpula econômica na ensolarada ilha caribenha de Guadalupe, Callaghan foi questionado por um jornalista, "Qual é sua atitude geral em vista do caos crescente no país nesse momento?", Callaghan deu o tipo de resposta hipócrita, condescendente, que estávamos fartos de ouvir de políticos: "Bem, esse é um julgamento que você está fazendo. Eu lhe prometo que se olhar para isso de fora, e talvez você esteja tendo uma visão muito paroquial do momento, não acredito que outras pessoas no mundo compartilhariam a visão de que há um caos em formação".

Ao fim da coletiva, Callaghan brincou que duvidava até de que "encontraria uma xícara de café" se houvesse esse caos em formação (claro, tínhamos café em aeroportos em 1979 - aquela detestável coisa instantânea). Essa demonstração de indiferença não caiu bem junto à imprensa britânica. A primeira página do jornal Sun no dia seguinte estampou a manchete: "Crise? Que crise?"

Por contraste, Thatcher - para nossa surpresa, é preciso dizer - nos deu esperança. E parte da razão foi sua recusa em dar respostas como a de Callaghan: "Meu trabalho é tirar a Grã-Bretanha do vermelho", ela havia declarado em novembro de 1977. Essa franqueza refrescante foi parte grande do seu atrativo.

Sim, é claro, suas políticas foram um enorme avanço ante a lúgubre mistura de corporativismo e estagflação que vigorara antes. O crédito deve ir para Keith Joseph e Alfred Sherman, cujo Centro de Estudos Políticos havia estabelecido grande parte das bases intelectuais do thatcherismo como um programa realizável, bem como aos ministros "secos" (em oposição aos não confiáveis "molhados") de seu gabinete que implementaram as reformas.

A eliminação dos controles de preço, salário e câmbio, a busca de metas monetárias para enfrentar a inflação, a privatização de empresas que haviam sido nacionalizadas pelos trabalhistas; a venda de casas populares, os cortes nas alíquotas do imposto de renda; sobretudo, o enfrentamento com os sindicatos que culminaram na greve dos mineiros de 1984 e 1985 - todas essas foram mudanças ousadas que tiveram de ser implementadas ante uma oposição feroz, por vezes violenta.

Mas o que tornou o thatcherismo tão impressionante para um jovem punk como eu foi a agressividade da própria Thatcher. Sim, havia um viés punk nela também - na maneira como glorificou o confronto até o último minuto de seus 11 anos de poder. Já em 1975, ela havia dito uma frase maravilhosa sobre o Partido Trabalhista: "Eles contraíram a doença socialista usual - consumiram o dinheiro dos outros". Isso ela contrastou memoravelmente com o que chamou de "a herança britânica": "O direito de um homem de trabalhar como quiser, gastar o que ganhar, possuir propriedade, ter o Estado como um servidor e não como um amo... Esta é a essência de uma economia livre. E dessa liberdade dependem todas as nossas outras liberdades". Era Hayek armado com um bolsa de alça, e eu adorei.

No poder, o desafio foi o seu forte. "Não há realmente nenhuma alternativa", ela declarou em junho de 1980, uma frase que foi logo abreviada para a sigla TINA (de "There really is no alternative"). "Para os que estão esperando com a respiração presa por aquele bordão favorito da mídia, a virada de opinião, tenho somente uma coisa a dizer", ela disse na Conferência do Partido Conservador em outubro de 1980: "Vocês virem se quiserem. Esta senhora não é de viradas".

Como uma verdadeira punk, Thatcher adorava uma briga. "Oh, mas vocês sabem", disse ela em 1984 numa entrevista na TV, "não se alcança nada sem problemas". E ela podia engrossar as coisas com um efeito letal. "Seu problema, John", ela disse em seus últimos desesperados dias no cargo a um deputado hesitante, "é que sua espinha não alcança seu cérebro".

Era uma definição que servia a muitíssimos britânicos no fim dos anos 1970. Mas não Margaret Thatcher; "Eu não consigo suportar a Grã-Bretanha em declínio", ela disse a um entrevistador da BBC em abril de 1979. "Simplesmente não consigo." E nós tampouco. Ela foi realmente a salvadora de seu país. E este velho punk lhe será eternamente grato. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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