Marine agora é bonita

A chefe do partido de extrema direita Marine Le Pen exulta. É verdade que ela não foi para o segundo turno da eleição francesa. Os dois finalistas são o atual presidente, Nicolas Sarkozy, de direita, e o socialista François Hollande. Mas a Frente Nacional, de Marine, obteve uma votação tão expressiva (18%) que tem as chaves da eleição. Por sua vontade, ela poderia decidir o futuro presidente ao convencer seus seguidores a depositar seus votos na direita (Sarkozy), na esquerda (Hollande) ou a se abster.

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2012 | 03h05

Compreende-se a felicidade de Marine. Até aqui, ela era mantida nos bastidores, no porão. Quando lhe dirigiam a palavra, era de longe, em tom condescendente. Isso quando não enxugavam a boca em seguida, como se tivessem beijado um leproso ou sifilítico. Desde que obteve 18% dos votos, no domingo, ela é a pessoa mais linda do mundo. Sarkozy e Hollande andam de um lado para o outro de sua varanda, fitam-na com olhos lânguidos, a boca úmida, como um apaixonado tocando violão sob a janela da amada.

Sarkozy corteja Marine sem moderação. Normal. Representante da direita tradicional, ele não precisa endurecer muito seu discurso para louvar as ideias de Marine. Ele multiplica seus apelos para explicar sua ideologia: xenofobia, preferência nacional, desconfiança dos imigrantes.

O comportamento de Hollande é menos aceitável. Em princípio, nada menos compatível que o humanismo, a tolerância, o antirracismo do Partido Socialista. Ora, Hollande, engolindo os escrúpulos, está à espreita. Evidentemente, sua tática é diferente. Ele se dirige aos eleitores de Marine. Ele diz que os compreende. Eles foram sempre enganados e desprezados por todos os partidos políticos, mas Hollande ouve seu sofrimento.

Pode-se admitir que Sarkozy defendeu com frequência causas próximas das defendidas pela Frente Nacional. Hollande, ao contrário, parece um cínico. Ele faz afagos nos radicais de Marine só para obter seu voto. Meu Deus, como a política é uma arte difícil! E o que não é preciso fazer para se eleger sob o risco de humilhar sua alma, renegar sua memória? Será que essas ofensivas vão funcionar?

Se, por exemplo, os eleitores de Marine concentrarem-se em Sarkozy, ele vencerá Hollande. Marine fez saber que não dará nenhuma instrução. Ela despreza tanto Hollande quanto Sarkozy. Ela quer explodir o campo da direita clássica e burguesa, da qual Sarkozy é o chefe.

Em seguida, sobre os escombros dessa velha direita desonrada, Marine construirá um novo partido que entrará com força no combate político. Resta saber se as tropas de Marine a obedecerão e escolherão a abstenção, sob o risco de permitirem a eleição de Hollande.

Mistério. É possível que, a despeito de Marine, o ódio à esquerda leve muitos eleitores de Marine a apoiar Sarkozy. Em que proporções? Essa é a chave da votação do dia 6. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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