Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Marine Le Pen ainda tem chance?

Em uma semana, Marine Le Pen precisaria convencer cerca de 4 milhões de franceses para vencer eleição presidencial na França

Helio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2017 | 05h00

O cientista político Ian Bremmer, da consultoria Eurasia, provocou rebuliço antes do primeiro turno da eleição francesa ao estimar em 40% a chance de vitória de Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN). Le Pen subiu nas pesquisas depois do primeiro turno. Tem em média 38,3% da preferência dos eleitores, ante 61,7% de Emmanuel Macron, segundo o site The CrossTab. Só que porcentual de votos não é probabilidade de vitória. 

Em nenhum modelo probabilístico Le Pen tem chances reais. No CrossTab, elas eram de 2,6% na última sexta-feira. Na Economist, menos de 1%. No Depuis1958, zero. Mais generosos, os mercados de apostas lhe davam entre 13% e 18%. Apesar de sedutora para consultores e jornalistas, a narrativa que leva do Brexit a Donald Trump e culmina com a vitória de Le Pen na França não encontra fundamento na ciência estatística. 

Antes da eleição americana, Trump estava apenas dois pontos atrás de Hillary Clinton. Os votos favoráveis ao Brexit no Reino Unido, meio ponto atrás. No primeiro caso, Trump venceu a eleição no Colégio Eleitoral, mas a votação popular confirmou as pesquisas. No segundo, o Brexit venceu por quatro pontos de diferença, graças a eleitores envergonhados que as sondagens não captaram. Mas o retrospecto das pesquisas é péssimo no Reino Unido, enquanto elas têm acertado (ou errado igualmente para cima e para baixo) a votação da FN na França desde 2012. 

Não há evidência de eleitores envergonhados de Le Pen. Outra dificuldade: ela tem desvantagem não de 3 ou 5 pontos porcentuais - mas de 23. Superar tal diferença em apenas uma semana equivale a convencer pelo menos 11,5% do eleitorado, uns 4 milhões de franceses, a mudar de ideia. Seria, mais que Brexit ou Trump, realmente extraordinário.

- Comparecimento é decisivo nas legislativas

Mais que as eleições presidenciais, as legislativas do início de junho, também realizadas em dois turnos, serão decisivas para o futuro da política francesa. Com os partidos tradicionais fora da disputa para presidente, é improvável que o eleito (ou eleita) obtenha maioria na Assembleia Nacional. Um fator crucial será o comparecimento nos 577 distritos eleitorais, já que o vencedor em cada um é definido pela proporção de eleitores inscritos, não de votos válidos. Quanto menos gente for votar, melhor para os partidos de eleitorado mais fiel e engajado, como a FN.

- A Frente Nacional versus a ‘mídia’

Como Trump, Le Pen e seus partidários se dizem em guerra contra a imprensa. Apresentam como evidência não só a cobertura que julgam enviesada, mas o fato de estarem banidos das páginas de opinião de jornais como Le Monde, Le Figaro e Libération. Pela política editorial, todos se recusam a publicar artigos que defendem pontos de vista racistas, antissemitas, antimuçulmanos ou xenófobos.

- A querela da identidade francesa

Tem causado celeuma o livro Histoire Mondiale de la France (História Global da França), organizado por Patrick Boucheron, do Collège de France. Lançado em janeiro, o calhamaço de 800 páginas reuniu 122 acadêmicos para contar a história do país com ênfase em elementos não franceses e já vendeu em torno de 100 mil exemplares. “Não menciona a política atual, mas nem precisa”, diz o historiador Robert Darnton. Conservadores veem a obra como provocação, por questionar a “identidade francesa”.

- Os mistérios da mente de Cormac McCarthy

O romancista americano Cormac McCarthy (foto), conhecido por obras como Meridiano de Sangue e Onde os velhos não tem vez, faz sua primeira incursão na não ficção na última edição da revista Nautilus. Num ensaio intitulado “O problema de Kekulé”, tenta decifrar mistérios da mente humana, discute a definição de inconsciente e as origens da linguagem.

- E 100 dias se passaram…

Mas ainda faltam 1.361 para Trump deixar o poder - caso não seja reeleito, nem tenha de sair até lá por outro motivo.

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