Quirinale Press Office / AFP
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Mario Draghi deve ser o rival de Berlusconi na disputa pela presidência italiana

A partir de 24 de janeiro, os parlamentares italianos votarão para eleger um novo presidente para sete anos de mandato

Jason Horowitz / The New York Times , O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2022 | 05h00

ROMA — Poucos meses atrás, durante uma cúpula internacional em Roma, o presidente Joe Biden disse reservadamente ao primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, que, no sentido de mostrar que democracias são capazes de funcionar bem, “Você está acertando”. Como bom indicador, acrescentou ele, de acordo com uma pessoa que presenciou a conversa, os italianos contam com “uma baita operação política”.

Desde que assumiu o cargo, em fevereiro do ano passado, Draghi estabilizou a volátil política italiana, tirou o populismo da moda, deu garantias aos mercados internacionais com reformas há muito pretendidas e aplicou duras medidas de combate à pandemia coronavírus. Ele transformou um país cujo caos político provocava chacotas frequentes em um líder na arena europeia. E imbuiu os italianos de um senso renovado de orgulho e estabilidade. 

Mas de repente os italianos encaram o prospecto de que Draghi — ex-presidente do Banco Central Europeu que recebe crédito amplamente por ter salvado o euro — poderá deixar o cargo de primeiro-ministro. A partir de 24 de janeiro, os parlamentares italianos votarão para eleger um novo presidente para sete anos de mandato; cujo influente, mas com frequência cerimonial papel, é cobiçado por Draghi, segundo amplo entendimento.

Se ele realmente se tornar presidente, afirmam seus apoiadores, os partidos políticos poderiam abrir caminho para um governo tecnocrata ou unir forças novamente em um novo governo de unidade nacional que poderia durar até as eleições seguintes ao Parlamento, em 2023. 

A influência estabilizadora de Draghi enquanto presidente, esperam alguns, poderia estender a era dourada de incomum unificação da política italiana ainda mais além. Mas a incerteza em torno do futuro de Draghi já desencadeou maquinações políticas e ambições reprimidas, empurrando a Itália de volta para um perigoso, e familiar, precipício de instabilidade. Parlamentares e muitos italianos temem uma bagunça que leve a um governo significativamente menos efetivo ou mesmo um tropeço em eleições antecipadas, o que quase ninguém quer. 

O caos político poderia acabar com a melhor chance da Itália em gerações de realizar reformas mais abrangentes e modernizadoras e colocar em perigo bilhões de euros em fundos europeus de recuperação condicionados à competência continuada do país. “Seria uma pena nos privarmos dessa oportunidade” perdendo a liderança de Draghi quando reformas-chave estão sendo realizadas e a Itália tem chance de se tornar líder na Europa, afirmou Vittorio Colao, ministro italiano de Inovação Tecnológica e Transição Digital, que anteriormente atuou como diretor-executivo do grupo de telecomunicações  Vodafone — e aliado próximo de Draghi. 

Draghi chegou ao poder como um primeiro-ministro provisório, em meio a uma crise política, em fevereiro de 2021, quando foi escolhido pelo atual presidente, Sergio Mattarella. O que torna mais oportuno seu tempo no cargo é o compromisso da União Europeia em ampliar os mais de € 200 bilhões (cerca de US$ 228 bilhões) em fundos de recuperação para a Itália — um montante capaz de amplificar a agenda reformista de Draghi e torná-la a mais transformadora em gerações. 

A Itália ainda tem de atender exigências rigorosas para Bruxelas soltar bilhões de euros em parcelas futuras. Em junho, por exemplo, a Itália terá de provar que seus programas ainda estão em prática para receber uma parcela de € 24 bilhões de Bruxelas nos meses seguintes. Colocar esse dinheiro nas mãos de Draghi tranquilizou mercados globais e líderes da União Europeia e deu à Itália a melhor oportunidade de se modernizar em décadas. 

Colao afirmou que as reformas financiadas pela UE serão uma “característica permanente no sistema italiano até 2026”. Mas quando questionado sobre o governo ser capaz de seguir adiante sem Draghi, ele afirmou: “Completamente sem ou com ele em outra função? Esta é a questão”. Nada de Draghi, afirmou ele, seria um “cenário ruim”. Apoiadores de Draghi notam que uma figura de sua estatura — com as conexões que ele tem com líderes estrangeiros e a atenção dos meios de comunicação que ele detém — poderia fortalecer o papel da presidência. 

Fissuras

Draghi seria o primeiro premiê no cargo a se tornar presidente. Desde que foi chamado por Mattarella para liderar o governo, o mundo passou a admirá-lo pela maneira que ele lidou com a pandemia e a recuperação da Itália. Ainda assim, o governo de unidade nacional de Draghi tem mostrado cada vez mais fissuras, como durante a recente aprovação de mudanças no Judiciário e na introdução da obrigatoriedade de vacinação para italianos a partir dos 50 anos.

Seus apoiadores argumentam que todo o empurra-empurra político para colocá-lo na presidência mostra que a data de validade de seu governo está, de qualquer maneira, se aproximando rapidamente do fim e que o país seria mais bem atendido por sete anos de Draghi na presidência, idealmente com sua substituição por algum tecnocrata de seu governo como primeiro-ministro, para estender o efeito Draghi.

“Em vez de sete meses, o período dourado poderia continuar por mais sete anos”, afirmou Claudio Cerasa, editor do jornal Il Foglio, que tem apoiado Draghi. “Primeiros-ministros vêm e vão, mas presidentes permanecem.” Colao, que, segundo muitos acreditam, tem seus próprios projetos para substituir Draghi como primeiro-ministro, acrescentou que Draghi “realmente pensa estrategicamente a longo prazo, mas tem uma abordagem muito, muito pragmática no curto prazo”.

Mas a eleição de Draghi como presidente não está garantida de nenhuma maneira. Ao contrário, dependendo do dia, sua postulação parece arriscada por uma torrente de competidores, incluindo o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

O segredo — e a natureza egoísta — da disputa pela presidência a torna perfeita para tráficos de influência. Nos dias recentes, movimentações iniciais tomaram a forma de ultimatos ameaçadores para o governo, com Berlusconi afirmando que retirará seu partido da coalizão governista se Draghi virar presidente. Negociações secretas entra a nacionalista Liga, liderada por Matteo Salvini, e o Partido Democrático, de centro-esquerda, já ocorrem, com o objetivo de evitar novas eleições, possivelmente mantendo Draghi de um governo composto por líderes políticos, em vez de tecnocratas. 

Muitos, mas talvez não Draghi, esperam que depois de votos suficientes não se materializarem para nenhum postulante à presidência, um relutante Mattarella, de 80 anos, pode ser persuadido por uma ampla aliança para exercer um novo mandato — ou pelo menos ficar no cargo por mais dois anos e deixar um novo mandato em seu início. Em teoria, isso permitiria a Draghi protelar seu emprego dos sonhos até que os vitais programas financiados pelos fundos de recuperação estejam em prática. Mas um ou dois anos são uma eternidade quando se trata da política italiana, em constante evolução. 

Unidade à prova

Draghi, que não é nenhum neófito na política, adicionou sua própria pressão, perguntando aos partidos se é imaginável que um governo fragmentado sobre a escolha de um presidente — seja ele ou qualquer outro — “volte a se reunir magicamente” para administrar o país.  

Pode ser que o instinto de autopreservação acabe decidindo o destino de Draghi. Em um referendo organizado em 2019, a Itália reduziu em mais de um terço a quantidade de assentos da próxima legislatura. O maior bloco do atual Parlamento ainda é dominado pelo antiestablishment Movimento 5 Estrelas, que implodiu desde que chegou ao poder. Muitos membros estão desesperados para que a atual legislatura continue, para que eles possam manter seus empregos.

E se eleições antecipadas forem convocadas em setembro, parlamentares em primeiro mandato — muitos deles políticos novatos temendo retornar para empregos mal pagos — também perderiam direito a lucrativas pensões. Como resultado, eles estão fortemente interessados em um presidente que lhes garantiria mais tempo no cargo. 

Berlusconi prometeu não permitir eleições até 2023. Mas em nome da prosperidade da Itália, os apoiadores de Draghi argumentam que ele precisa permanecer no papel central, de uma maneira ou de outra. “Estou convencido”, afirmou Colao, “que a orquestra e o maestro indicaram que uma nova maneira de lidar com as coisas é possível.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

 

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