Evgeniy Maloletka/AP - 24/2/2022
Evgeniy Maloletka/AP - 24/2/2022

Mariupol, cidade portuária na Ucrânia, é cercada por separatistas; 'Estamos sendo destruídos'

Russos e separatistas pró-Moscou cercam cidade de de 430 mil habitantes, deixam população sem luz, água e energia, incapaz de fugir, e fazem ultimato

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2022 | 11h16

MOSCOU - O conselho da cidade de Mariupol, um importante porto no Mar de Azov (que banha tanto a Ucrânia quanto a Rússia), disse que as forças russas estão constantemente e deliberadamente bombardeando infraestruturas civis vitais no porto do Sudeste da Ucrânia, deixando-o sem água, aquecimento ou energia e impedindo o fornecimento de suprimentos ou a saída de pessoas.

"Eles estão quebrando os suprimentos de comida, nos colocando em um bloqueio, como na antiga Leningrado", disse o conselho em um comunicado, referindo-se ao prolongado cerco da Alemanha nazista durante a 2.ª Guerra à então cidade soviética agora conhecida como São Petersburgo. Cerca de 1,5 milhão de pessoas morreram no cerco de mais de dois anos.

"Deliberadamente, por sete dias, estão destruindo a infraestrutura crítica de suporte à vida (de Mariupol). Não temos luz, água ou aquecimento novamente", disse o conselho.

O orgão afirmou que busca criar um corredor humanitário para Mariupol, além de tentar restaurar a infraestrutura. "Mariupol continua sob fogo. Mulheres, crianças e idosos estão sofrendo. Estamos sendo destruídos como nação. Isso é um genocídio do povo ucraniano", disse.

Apesar disso, a nota ressalta que a Rússia "fez pouco progresso discernível em mais de três dias. Apesar dos bombardeios russos pesados, as cidades de Kharkiv, Chernihiv e Mariupol continuam em mãos ucranianas."

Enquanto as denúncias dramáticas acontecem, forças pró-Moscou ameaçam Mariupol, dando um ultimato às suas autoridades, segundo agências russas.

Ofensiva

Forças separatistas pró-Rússia podem lançar uma ofensiva destrutiva contra a cidade ucraniana, a menos que as forças ucranianas se rendam, publicou a agência de notícias Interfax, citando o comandante separatista de Donetsk, Eduard Basurin, nesta quinta-feira, 3.

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A Rússia e os separatistas dizem ter cercado a cidade de 430 mil habitantes. O cerco faria parte da nova estratégia do Kremlin, de realizar uma invasão militar mais longa, dura e destrutiva na Ucrânia.

Importante centro industrial, Mariupol sempre teve um papel significativo na economia ucraniana e foi o centro de uma intensa disputa no começo da Guerra de Dombas, em 2014 — quando chegou a ficar sob o controle dos separatistas de Donetsk até ser recuperada pelo governo central ucraniano.

A população da cidade é majoritariamente de língua russa. Ela foi ocupada por nazistas de 1941 a 1943 e ficou praticamente destruída após a guerra, até ser reconstruída pela União Soviética.

Em Kiev

O presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, permaneceu em Kiev, divulgando atualizações regulares de vídeo para a nação. Em sua última mensagem, ele disse que as linhas ucranianas estavam em espera. “Não temos nada a perder a não ser nossa própria liberdade”, disse ele.

Em Borodianka, uma pequena cidade a 60 km (40 milhas) a noroeste de Kiev, onde os moradores repeliram um ataque russo, cascos queimados de blindados russos destruídos foram espalhados em uma estrada, cercados por prédios explodidos em ruínas. 

As chamas de um prédio de apartamentos em chamas iluminaram o céu antes do amanhecer. Um cachorro latiu enquanto os socorristas caminhavam pelos escombros na escuridão.

“Eles começaram a atirar de seu blindado  em direção ao parque em frente aos correios”, contou um homem no apartamento onde estava abrigado com sua família. “Aí aqueles desgraçados acionaram o tanque e começaram a atirar no supermercado que já estava queimado. Pegou fogo de novo. Um velho correu para fora como um louco, com grandes olhos redondos, e disse "me dê um coquetel molotov. Acabei de colocar fogo no blindado deles. Me dê um pouco de gasolina, vamos fazer um coquetel molotov e queimar o tanque.”

Bombardeios e ataques russos contra populações civis mataram 34 civis na região leste de Kharkiv, na Ucrânia, nas últimas 24 horas entre 2 e 3 de março, disseram os serviços de emergência nesta quinta-feira.

Tropas russas circularam no centro do porto ucraniano de Kherson, nesta quinta-feira, após um dia de reivindicações conflitantes sobre se Moscou havia capturado ou não um grande centro urbano ucraniano, pela primeira vez após o início de sua invasão, em 24 de feveiro, há oito dias.

O Ministério da Defesa da Rússia disse, na quarta-feira 2, que controlava Kherson, mas um assessor do presidente Zelenski respondeu que as forças ucranianas continuavam a defender o porto do Mar Negro. "Somos um povo que quebrou os planos do inimigo em uma semana", disse Zelensky em um discurso em vídeo. "Esses planos levaram anos para serem escritos - eles são mesquinhos, com ódio ao nosso país, ao nosso povo".

Uma delegação ucraniana partiu para uma nova rodada de negociações com autoridades russas sobre um cessar-fogo, segundo informou o assessor presidencial ucraniano, Mykhailo Podolyak, à Reuters. Até o momento, na guerra, mais de um milhão de pessoas fugiram da Ucrânia, em meio ao maior ataque a um estado europeu desde 1945. / REUTERS

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