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Marrocos se junta a outras nações árabes e anuncia normalização dos laços com Israel

Negociação teve mediação do presidente americano, que anunciou a abertura de um consulado no Saara Ocidental, em apoio à soberania marroquina nesse território disputado; Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Sudão firmaram acordos parecidos

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 16h46

RABAT - Israel e Marrocos concordaram nesta quinta-feira, 10, em normalizar as relações em um acordo negociado com a ajuda dos Estados Unidos. O reino é o quarto país árabe a deixar de lado as hostilidades com Israel nos últimos quatro meses. Ele se junta aos Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Sudão a firmarem acordos com Israel, impulsionados em parte pelos esforços liderados pelos EUA para apresentar uma frente unida contra o Irã e reduzir a influência regional de Teerã.

O governo marroquino declarou que estabelecerá as relações diplomáticas com Israel "o quanto antes" e anunciou voos diretos entre Marrocos e Israel. O anúncio foi feito pelo rei Mohamed VI, em conversa por telefone com o presidente americano, Donald Trump, que por sua vez comunicou a abertura de um consulado na cidade de Dakhla, no Saara Ocidental, em apoio à soberania marroquina na disputa sobre esse território.

Esses anúncios, que constituem uma importante virada na política marroquina e uma conquista sem precedentes em seu apoio internacional à questão do Saara, foram anunciados em comunicado do Gabinete Real marroquino, dado que a política externa é um dos domínios exclusivos do monarca.

As relações diplomáticas se materializarão na "reabertura dos escritórios de ligação nos dois países", como existiam até 2002, o que sugere que não terão o status de embaixadas. Serão escritórios com funções principalmente econômicas e tecnológicas. Marrocos e Israel estabeleceram escritórios de representação em Rabat e Tel-Aviv nos anos 90, mas foram fechados na década de 2000.

Quanto aos voos diretos, essas operações buscam facilitar a visita da grande comunidade judaica de origem marroquina (centenas de milhares de pessoas) ao Marrocos, além de outros turistas israelenses. 

O rei destacou que essas medidas "de nenhuma maneira afetam o compromisso permanente e sustentado do Marrocos com a causa palestina" em favor de "uma paz justa e duradoura no Oriente Médio".

De acordo com o monarca, o país apoia uma solução baseada em dois Estados (Israel e Palestina) vivendo juntos em paz e segurança, na qual "o status especial de Jerusalém e o respeito pela prática dos ritos religiosos das três religiões monoteístas" é preservado, mas não menciona mais Jerusalém como a capital única e indivisível da Palestina.

Com relação à forte declaração de Trump sobre o Saara Ocidental (o governo dos EUA reconheceu a soberania marroquina sobre o território e que a única base para uma solução do conflito era a proposta marroquina de autonomia), Mohamed VI expressou a Trump "sincera gratidão pelo franco e inequívoco apoio à marroquinidade do Saara".

'Pecado político' 

Já o movimento islâmico palestino Hamas, no poder na Faixa de Gaza, considerou o acordo de normalização das relações de um "pecado político". "É um pecado político que não serve à causa palestina e encoraja a ocupação (nome dado pelas autoridades palestinas a Israel) a continuar negando os direitos de nosso povo", disse o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, à agência France Presse. 

Bahrein e Emirados Árabes Unidos já concordaram, nos últimos meses, em normalizar suas relações com Israel, em acordos impulsionados e mediados por Jared Kushner, genro e assessor de Trump. O Sudão também concordou em estabelecer as relações e, segundo Kushner, o reconhecimento e a normalização dos vínculos entre Arábia Saudita e Israel é "inevitável".

"A aproximação e a completa normalização das relações entre Israel e Arábia Saudita é agora algo inevitável, mas o prazo (...) ainda é algo que deve ser instrumentado", disse Kushner aos jornalistas.

O assunto da normalização entre Rabat e Israel foi retomado em fevereiro durante uma visita oficial ao Marrocos do chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo.

Naquele momento, a imprensa israelense disse que Rabat estaria disposto a fazer um gesto em troca do apoio americano à sua posição sobre o Saara Ocidental, a ex-colônia espanhola disputada por marroquinos e separatistas da Frente Polisário, apoiados pela Argélia.

Washington apoiou um cessar-fogo de 1991 entre Marrocos e a Frente Polisário, que apelou a um referendo para resolver a questão. No mês passado, após um incidente na fronteira, a Polisário desistiu do acordo e anunciou o retorno à luta armada. 

Um representante do movimento de independência da Frente Polisário para o Saara Ocidental disse que "lamenta muito" a mudança de política dos EUA, que chamou de "estranha, mas não surpreendente". "Isso não mudará um centímetro da realidade do conflito e do direito do povo do Saara Ocidental à autodeterminação", disse Oubi Bchraya, representante da Polisario na Europa.

Posição inalterada 

A Organização das Nações Unidas disse que sua posição "não mudou" na disputada região do Saara Ocidental depois do anúncio dos EUA e do Marrocos. O secretário-geral da ONU, António Guterres, acredita que "a solução para a questão ainda pode ser encontrada com base nas resoluções do Conselho de Segurança", disse seu porta-voz, descrevendo a posição da ONU como "inalterada".

A ONU enviou uma missão de paz denominada Minurso à região para monitorar um cessar-fogo e supostamente organizar um referendo sobre o status do território. /EFE, REUTERS e AFP   

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