Marroquino preso em SP é transferido

O marroquino Gueddan Abdel Fatah, de 27 anos, foi removido na tarde de quinta-feira, sob forte esquema de proteção, da Casa de Detenção para o Centro de Observação Criminológica - estabelecimento prisional em São Paulo, dotado de um forte sistema de segurança. A remoção de Fatah foi determinada pelo juiz corregedor Octávio Augusto de Barros Filho. As autoridades brasileiras querem evitar que o marroquino sofra algum tipo de atentado, depois das revelações que fez à Polícia Federal sobre um suposto grupo interessado em "explodir os Estados Unidos".Preso há oito meses por uso de documento falso e tentativa de assalto, Fatah contou à PF que entrou no Brasil portando um passaporte venezuelano que adquiriu em Caracas. No último dia 5, seis dias antes do ataque terrorista contra Nova York e contra Washington, Fatah entregou uma carta datilografada em português para a advogada Edith Espinosa, que fora à Casa de Detenção visitar um cliente.O marroquino pediu à advogada que entregasse a carta ao "diretor da Polícia Federal em São Paulo". Cópias da carta deveriam ser levadas, também, para a Embaixada dos Estados Unidos e para a Justiça Federal. "Preciso falar urgente sobre assuntos muito importantes", dizia Fatah na carta. Ele acrescentou que pretendia fazer revelações sobre grupos extremistas que se articularam para praticar atos terroristas. Fatah fez referências a "duas explosões" que poderiam ocorrer nos Estados Unidos.As cartas, produzidas pelo marroquino, não foram levadas aos destinatários. Na terça-feira, horas depois da onda de ataques aos EUA, o delegado César Toselli, da Polícia Federal em São Paulo, foi ao presídio do Carandiru e ouviu o depoimento do marroquino. Fatah disse ser "militante islâmico" no Brasil e admitiu ter participado de reuniões do grupo empenhado na onda de atentados. Tais reuniões ocorriam em mesquitas em Foz do Iguaçu (PR). Também houve encontros no Rio.Segundo Fatah, dessas reuniões participaram xiítas e sunitas, duas facções opostas. "Eu achava estranho que isso ocorresse, porque são duas tendências que normalmente não se freqüentam", declarou Fatah. Ele disse ter mantido "contatos intensos" com oito estrangeiros, entre os quais quatro paquistaneses, um costarriquenho e um hindu.O marroquino citou o nome de Amin Mir que residiria, segundo ele, em um apartamento na esquina das ruas 42 e 12, em Nova York. Fatah contou ainda que após a realização de cultos às mesquitas, um hindu "ligava muito para os Estados Unidos e falava em códigos".Segundo o marroquino, após a leitura do Alcorão "todos pregavam ideologias contrárias aos Estados Unidos". Certa vez, um dos radicais que ele conheceu na Mesquita de Foz do Iguaçu, identificado como Said, teria dito a ele: "estamos esperando os Estados Unidos explodirem".Ele afirmou ainda que, assustado, teria procurado o consulado norte-americano na Argentina para "tentar passar a informação". Ninguém quis ouvi-lo. No Brasil, tentou contatos por telefone com os consulados de Israel e dos Estados Unidos, mas também não foi atendido, segundo afirma.Para a Polícia Federal, a história contada por Fatah "tem alguma consistência". Os federais acreditam que o marroquino foi recrutado pelo grupo extremista mas, por algum motivo, acabou sendo "descartado" do esquema. Isolado, sem recursos para se manter, Fatah tentou fazer um assalto em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, no início do ano, quando foi preso em flagrante.Em seu segundo depoimento à PF na quinta-feira, Fatah disse que chegou ao Brasil pela primeira vez há dois anos, entrando por Foz do Iguaçu. Depois, voltou para o exterior, passando sucessivamente pela Itália, Turquia, Marrocos, Venezuela e Colômbia, ingressando outra vez no Brasil. À PF, ele disse que seus primeiros contatos foi com "um grupo de jovens de diversas nacionalidades, todos muçulmanos, que estiveram no Rio. Agentes do FBI que trabalham na embaixada dos Estados Unidos em Brasília estão examinando o teor dos relatos de Fatah.

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