Mártires cristãos no Iraque

Há alguns dias, os cristãos da segunda maior cidade do Iraque, Mossul, tomada recentemente pelos jihadistas do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês), ganharam o direito de escolher seu destino. Os novos donos de Mossul oferecem quatro opções: deixar o Iraque no prazo de 24 horas, converter-se ao islamismo, pagar um imposto especial para os não muçulmanos, tornando-se cidadãos de segunda categoria ou, finalmente, morrer pela espada.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2014 | 02h01

Segue, portanto, a história iniciada em 2003, com a queda de Saddam Hussein. O ditador iraquiano, que George W. Bush perseguiu e mandou matar, protegia os cristãos do Iraque, garantindo a permanência de uma das mais nobres e heroicas igrejas católicas do Oriente (rito caldeu, siríaco, armênio, grego ou latino). Enquanto Saddam vivia, a comunidade tinha mais de um milhão de fiéis.

Era uma espécie de milagre. Fundada no século 4.º, essa corrente católica teve um papel preponderante naquele tempo. Foi ela que converteu ao cristianismo uma parte dos mongóis. Além disso, transmitiu aos árabes e posteriormente à Europa medieval toda a cultura da Grécia antiga.

Desde que os americanos mataram Saddam, os católicos foram escorraçados do Iraque ou perseguidos. Hoje, com a chegada dos jihadistas do Isil (mais obtusos e perversos do que os de Osama bin Laden e da rede Al-Qaeda), começa o tempo da agonia.

Um pedaço da história, construído ao longo de 15 séculos, ameaça ser aniquilado, pelo menos se os fanáticos do Isil consolidarem sua vitória e conseguirem criar um califado que ignora as fronteiras políticas habituais e sonha implantar a sharia em grande parte da Síria e do Iraque, de Alepo a Bagdá. As perseguições tem ocorrido desde que, há um mês, foi proclamado o califado islâmico.

Não conhecemos todos os detalhes e todas as indignidades. Contudo, sabe-se que centenas de iraquianos cristãos teriam sido mortos e mais de 600 mil tomaram o caminho do exílio. Em Mossul, as casas dos cristãos foram marcadas com a letra N (que significa Nassarah ou Nazareno, um pouco como as casas dos judeus eram emporcalhadas por Hitler).

Onde se refugiam esses cristãos expulsos de suas casas? Muitos se dirigem para Qaraqosh, 30 quilômetros a leste de Mossul, por ser uma cidade de maioria cristã. Além disso, a localidade é predominantemente curda. Os curdos opõem-se aos fanáticos do califado. Seus guerreiros, os peshmergas, são muito fortes. Eles lutam contra as tropas jihadistas e protegem os cristãos.

Surpreende um pouco que esse fato não tenha provocado indignação nas capitais ocidentais. É claro que todas essas calamidades são tão numerosas e asquerosas que cada horror atua como um filtro para impedir que se percebam outros horrores: Síria, Faixa de Gaza, a Líbia à beira do abismo, Sudão, República Centro-Africana, Ucrânia, etc. O mundo hoje não passa de uma extensa decepção, um longo soluço. Mas, no caso dos cristãos de Mossul, estamos diante de uma das mais violentas crueldades.

Evidentemente, o papa Francisco está se mexendo. Domingo, ele denunciou o horror iraquiano, mas os europeus, por enquanto, limitam-se a indignar-se. E o que está sendo feito para acolher os 400 mil cristãos iraquianos sob ameaça de serem expulsos de suas casas? O Departamento de Estado americano foi um pouco mais ativo do que as chancelarias europeias e acaba de condenar as "perseguições sistemáticas das minorias". Mas e depois? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

GILLES LAPOUGE É CORRESPONDENTE EM PARIS

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