Martírio e diplomacia na aproximação entre Teerã e Washington

O Oriente Médio é uma região em que os destinos mudam rapidamente. Basta perguntar ao premiê turco, Recep Tayyip Erdogan. Não faz muito tempo, neo-otomanismo era uma palavra em moda para descrever a crescente influência da Turquia com base no dogma do "nenhum problema com os vizinhos". Agora, todos os vizinhos têm problemas. Entre eles, a Síria.

ANÁLISE: Roger Cohen / NYT, É COLUNISTA, ANÁLISE: Roger Cohen / NYT, É COLUNISTA, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2013 | 02h06

A reação explosiva de Erdogan contra a repressão da Irmandade Muçulmana no Egito e o tratamento da oposição sunita na Síria são acessos desequilibrados de um homem solitário cujo islamismo moderado transformou-se em fúria. Talvez Erdogan possa se beneficiar do conselho de um vizinho, o Irã. Sua rápida mudança está associada a uma repentina adoção da chamada "flexibilidade heroica". A frase, usada pelo aiatolá Ali Khamenei, foi reforçada na ONU pelo presidente Hassan Rohani.

O bom senso parece predominar no Irã após as oscilações insanas de Mahmoud Ahmadinejad. Rohani e o presidente Barack Obama quase se encontraram em Nova York e há uma esperança de um avanço nas relações entre EUA e Irã equivalente ao de Richard Nixon com a China. A volatilidade no Oriente Médio, porém, é tanta que é preciso cautela. O Irã opera em duas vias. A primeira é a aproximação sugerida por Rohani. A segunda é o envolvimento da Guarda Revolucionária na defesa de Bashar Assad. A maneira como Khamenei manejará essas duas correntes discrepantes será decisiva para saber se a aproximação entre americanos e iranianos levará a algum lugar.

O líder supremo tem dois modelos de doutrina xiita à disposição: a conciliação do segundo imã xiita, Hassan ibn Ali, que escolheu a paz depois do assassinato de seu pai, em 661, ou o heroico sacrifício de seu irmão mais jovem, Hussein, que combateu até a morte, apesar de todas as dificuldades. Khamenei qualificou o compromisso de Hassan como "o mais glorioso exercício de flexibilidade da história". Mas foi o martírio desafiador de Hussein que teve mais influência nos 34 anos da república islâmica. O uso da frase "flexibilidade heroica" pelo aiatolá sugere que ele dará uma chance à conciliação.

Os termos de um acordo nuclear não são um grande mistério e incluiriam a limitação do enriquecimento de urânio pelo Irã a 5%, as instalações subterrâneas em Fordo seriam fechadas e todos os planos de separação de plutônio seriam abandonados - em troca de uma suspensão das sanções. No entanto, as idas e vindas do programa nuclear sempre tiveram caráter político. Essa é a expressão básica da essência da revolução iraniana: a rejeição da ideologia estrangeira e da dependência externa depois de décadas de humilhação pelo Ocidente. A produção da bomba era secundária, porque sempre foi um grande perigo para a sobrevivência do regime - e Khamenei é um conservador.

Assim, o foco das futuras negociações é saber se Obama conseguirá garantir que um acordo não significará a cooptação do Irã. Ao mesmo tempo, Khamenei precisa tranquilizar os EUA de que a resistência contra o Ocidente e Israel cessará. Um acordo nuclear terá pouco sentido se não conduzir a uma cooperação. Obama e Rohani concordam que não se trata mais de um mundo de soma zero, em que um ganha e o outro perde. Mas, como mostra a política externa de Erdogan, boas intenções não bastam. Esta é a última grande chance de um acordo. EUA e Irã precisam aproveitá-la. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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