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Máscaras e líderes: mais do que um objeto, uma mensagem política

Nem todos usam a máscara protetora contra a covid-19, mas as atitudes em relação a ela têm sempre um significado

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2020 | 05h00

Donald Trump se recusa a usá-la, Emmanuel Macron adicionou uma fita tricolor da bandeira francesa, e a presidente eslovaca se esforça para combinar com seu vestido: nem todos os líderes do mundo usam a máscara protetora contra a covid-19, mas sua atitude em relação a ela tem sempre um significado político marcado.

Muitos se opuseram ao seu uso no início da pandemia, especialmente no Ocidente, antes que os especialistas dessem suas opiniões. Afinal, os políticos devem ou não usar a máscara?

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"A decisão depende da mensagem que o líder quer passar", comenta Jacqueline Gollan, especialista em comportamento da Universidade de Northwestern, em Illinois (Estados Unidos).

"Pode usá-la se quiser promover a saúde pública. Renuncia o uso se quiser expressar que o risco de transmissão é fraco e que as coisas se normalizam", explica.

Seja qual for a primeira motivação, sua atitude "constitui um exemplo que muitas pessoas vão seguir", confirma Claudia Pagliari, pesquisadora da Universidade de Edimburgo.

"Mentira"

Algumas opiniões públicas - por exemplo, mais de 75% dos franceses, segundo uma pesquisa - suspeitam que seus governos mentiram sobre a eficácia da máscara para esconder suas dificuldades.

"Os responsáveis se equivocaram ao pensar que o público é estúpido e incapaz de compreender uma mensagem complexa", lamenta Matthew Lesh, especialista em política pública do Instituto Adam Smith, de Londres.

"Então eles simplificam a mensagem. Em vez de dizer que é necessário deixar as máscaras para certas profissões expostas (...), favorecem uma mensagem simples que diz que as máscaras realmente não funcionam", acrescentou.

De fato, a cultura mundial é muito diversificada em relação ao uso da máscara. Os asiáticos a usam em massa, primeiro contra a contaminação e depois por ter sofrido várias epidemias desde a SARS em 2003.

KK Cheng, diretor do Instituto de Pesquisa Aplicada da Universidade de Birmingham, não entende a relutância dos líderes ocidentais. "É simplesmente física", afirma. "Se não funcionasse, por que pedimos então às pessoas que cubram a boca quando tossem?", questionou.

No entanto, outros se recusam decididamente a usá-la, como o presidente Jair Bolsonaro e seu homólogo Donald Trump. 

"Não sei... Não me vejo com isso", declarou Trump em abril, sem maiores justificativas. E na terça-feira visitou uma fábrica de máscaras - sem levar uma -, apesar de um pôster recomendar seu uso em qualquer circunstância.

"A pandemia surge ao mesmo tempo que um movimento populista planetário", lamenta Pagliari. "Infelizmente, as máscaras se tornaram o mais recente tótem deste movimento, como quando as máscaras da gripe espanhola de 1919-20 foram vistas pelos manifestantes como o símbolo de um feroz controle do Estado", acrescentou. /AFP

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