Massa indica apoio a Macri no 2º turno

Rodrigo Cavalheiro

O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2015 | 02h03

CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

Desde a eleição presidencial de domingo na Argentina, o terceiro colocado, Sergio Massa, recebe tanta atenção quanto o governista Daniel Scioli e o conservador Mauricio Macri, que disputarão o segundo turno dia 22. Escolhido por 5,2 milhões de eleitores (21%), Massa não foi explícito, mas inclinou-se ontem por Macri ao defender mudança e condicionar seu a apoio à adoção de projetos mais próximos da direita.

"Precisamos deixar bem clara nossa opção, porque a Argentina precisa de uma mudança", disse o deputado, em ato posterior a uma tarde inteira de discussão com a base sobre as condições de seu apoio. Massa esclareceu as características que deve ter o projeto. Uma é "declarar guerra ao narcotráfico". Ele pediu que o eleito não use o Exército só para defender as fronteiras, mas recupere a paz das grades cidades.

Acrescentou também que a mudança deve garantir a substituição dos programas sociais "como ferramenta de cristalização da pobreza" por formas de recolocar os beneficiários no mercado de trabalho.

"O eleitor de Massa tem o perfil de classe média, claramente opositor ao governo", avaliou o sociólogo e consultor Ricardo Rouvier. "Não são tão pobres para conseguir acesso aos programas sociais, nem tão ricos para aproveitar as vantagens como as viagens ao exterior", disse o analista político Carlos de Angelis, professor da Universidade de Buenos Aires.

Massa ainda relacionou a "mudança" a um governo transparente que não use politicamente o Conselho da Magistratura, grupo usado pelo kirchnerismo para nomear e derrubar juízes de determinadas causas. Isso o afastou ainda mais de Scioli. O governista não teria como aderir a todas essas reivindicações sem entrar em um choque anda maior com o núcleo mais próximo da presidente Cristina Kirchner.

Sinais. "Votaram 35% pela continuidade do kirchnerismo. Os outros 65% escolheram uma mudança. O que precisamos fazer agora é que essa mudança não represente retrocessos, mas a grande maioria dos argentinos já se decidiu pela mudança", acrescentou Massa, no trecho que em que chegou mais perto de declarar apoio a Macri.

Seus dois homens de confiança durante a campanha foram mais diretos ao ser questionados sobre seus votos. O ex-ministro de Economia Roberto Lavagna, apontado por analistas políticos como o mais avesso a um apoio a Macri, afirmou que "em princípio" escolheria o conservador. Ele é um peronista que esteve à frente da economia durante a crise de 2001 e 2002. "Estou no grupo da mudança, o que em princípio é votar em Macri", afirmou. Lavagna disse ter recebido depois da eleição uma proposta do grupo de Scioli para ocupar um ministério, o que foi indiretamente criticado por Massa, ao falar da "política do contracheque".

Outro "massista", o governador da Província de Córdoba, José Manuel de la Sota, revelou seu escolhido por exclusão. "Não vou votar em Scioli, digo com todas as letras. O kirchnerismo fez muito dano ao país. É mais do mesmo."

O grupo criado por Massa, a Frente Renovadora, é formado por ex-kirchneristas que abandonaram o governo em 2013. Eles impediram a aprovação de uma reforma constitucional que permitiria à presidente tentar um terceiro mandado. "Nós começamos essa mudança em 2013", argumentou Lavagna, referindo-se ao projeto "Cristina Eterna".

A presidente não se manifestou desde a eleição. Está marcada para a tarde hoje sua reaparição em um ato de governo. Um encontro dela com Scioli, previsto para a residência oficial ontem, foi desmentido por seus assessores. A divisão kirchnerista é o maior desafio de Scioli, que obteve 36,8% dos votos. Macri obteve 34,3%.

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