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Membros da comunidade de Charleston, na Carolina do Sul, prestam homenagem às 9 vítimas do massacre na Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel REUTERS/Brian Snyder

MASSACRE DE NEGROS EM CHARLESTON APROXIMA COMUNIDADE

CHARLESTON,  EUA  - Planejado para gerar ódio e divisão, o assassinato de nove pessoas em uma das mais tradicionais igrejas negras americanas teve o efeito inverso, de unir o país e os moradores de Charleston, a cidade americana que foi o principal porto de entrada de escravos nos EUA. O local do crime se transformou em ponto de peregrinação espiritual, onde negros e brancos se reúnem desde a noite de quarta-feira para rejeitar o ato de violência e homenagear as vítimas.

Claudia Trevisan, Enviada especial, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2015 | 02h02

Cerimônias ecumênicas são realizadas em diferentes locais de Charleston, conhecida como "cidade sagrada" por ter o maior número de igrejas por habitantes dos EUA. Mas foi em uma quadra de basquete que centenas de pessoas se reuniram na noite de sexta-feira para um culto com a presença de parentes dos nove mortos. Nenhuma igreja da cidade teria capacidade para abrigar todos os presentes.

"Se ele achava que iria dividir o país, nós estamos aqui juntos para dizer que ele fracassou imensamente", disse Joseph Riley, que está em seu 10º mandato como prefeito de Charleston. "Seus delírios estão do lado errado da história. Suas ideias de superioridade racial pertencem à lata de lixo da civilização", declarou Riley, aplaudido de pé pelo público majoritariamente branco.

Os negros representaram a maior parte da população de Charleston do início do século 18 até a segunda década do século 20, quando começaram a migrar em direção ao norte para fugir da segregação racial remanescente e buscar oportunidades de emprego na indústria. Atualmente, 68% da população é branca e 27%, afro-americana.

Candidato à sucessão de Riley nas eleições deste ano, John Tecklenburg concordou. "Ele acabou despertando amor em vez de ódio. É trágico que o amor floresça dessa maneira, mas esse foi o efeito." Tanto Riley quanto Tecklenburg são brancos, mas o mesmo sentimento era compartilhado pelos negros. "Ele escolheu a cidade errada e o povo errado. Ele não será vitorioso aqui", disse o pastor Thomas Dixon, ativista de direitos civis.

Branca e judia, Wendy Frederick, de 58 anos, era uma das centenas de participantes da cerimônia na noite de sexta-feira. "O tipo de pessoa que realiza ataques como esse é o mesmo que atacaria pessoas da comunidade judaica. Poderíamos estar entre os mortos", disse ao Estado. Durante todo o dia de ontem centenas de pessoas continuaram a se reunir em frente à Mãe Emanuel, como é conhecida a igreja onde as nove pessoas foram assassinadas. Pastores se revezavam em um púlpito improvisado e anônimos puxavam o coro de músicas cantadas pela multidão. Muitos brancos choravam e abraçavam seus conterrâneos negros, como se pedissem perdão por um ato sobre o qual não têm responsabilidade. No início da noite, várias pessoas carregando flores e cartazes contra o racismo participaram de uma marcha que terminou em frente à Mãe Emanuel.

Com quase 200 anos, a igreja tem uma história ligada à luta pelo fim da abolição e ao movimento por direitos civis que contestou a segregação racial imposta depois do fim da escravidão. Fechado desde a noite do crime, o prédio será aberto para o culto de hoje.

A solidariedade gerada pelo crime não ignorava o fato de que o racismo continua a ser um problema na sociedade americana, seis anos depois da eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro da história do país. "Ele não era um alienígena. Ele estava vivendo neste país e neste Estado e sua cabeça estava cheia de ódio racial. Precisamos entender de onde isso vem, para podermos reagir", afirmou o prefeito durante a cerimônia da noite de sexta-feira.

Democrata em um Estado republicano, Riley também defendeu um debate nacional em torno da necessidade de maior controle sobre o porte de armas, algo recorrente nos discursos de Obama. No dia seguinte ao massacre de Charleston, o presidente voltou ao assunto. "Eu fiz pronunciamentos como esse demasiadas vezes", lamentou, na 14ª vez em que se manifestou na esteira de tiroteios com múltiplas vítimas.

Em frente à Mãe Emanuel, Della Jordan, que é negra, disse que as manifestações de racismo se acentuaram desde a eleição de Obama. A poucos metros, um jovem negro puxava um coro, respondido por brancos e negros: "Quando vidas negras importam, todas as vidas importam".

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CHARLESTON, EUA , O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2015 | 02h04

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