Rick Bowmer/AP
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Massacre de família dos EUA evidencia piora da segurança pública no México

Situação se deteriorou sob comando de López Obrador e país deve bater novo recorde este ano, superando 30 homicídios por 100 mil habitantes, o triplo do que era em 2007; Trump oferece ajuda a presidente mexicano, que se mostra reticente

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2019 | 21h13

CIDADE DO MÉXICO - Foi um massacre com requintes de crueldade. Nove membros de uma família de mórmons americanos – três mulheres e seis crianças – foram fuzilados e queimados na segunda-feira, 4, em uma estrada do Estado de Sonora. A chacina evidencia os erros da segurança pública do México, que se deteriorou sob comando do presidente Andrés Manuel López Obrador

No primeiro semestre, 17 mil pessoas foram assassinadas no México – 5% mais que no mesmo período de 2018, segundo o Sistema Nacional de Segurança Pública (SNSP), órgão ligado à secretaria de governo. Segundo projeções do Instituto Nacional de Estatística e Geografia (Inegi), o país deve bater novo recorde este ano, superando os 30 homicídios por 100 mil habitantes – o triplo do que era em 2007, quando a guerra às drogas do presidente Felipe Calderón completou seu primeiro ano, e 75% a mais que em 2015.

O massacre ocorreu em plena luz do dia. Um dos sobreviventes, Julián LeBarón, contou que a família viajava em três carros entre duas comunidades na fronteira com os EUA, quando foi emboscada. Entre as crianças mortas, a mais velha era um garoto de 12 anos. As duas mais novas eram gêmeas de 8 meses. Depois de metralhado, um dos carros foi incinerado. Um dos meninos foi abatido quando tentava escapar. 

Segundo autoridades locais, oito crianças sobreviveram. Algumas conseguiram se esconder atrás de uma árvore. Outra, de 12 anos, caminhou alguns quilômetros até encontrar ajuda. “Nós não sabemos o porquê, não sabemos quem fez isso”, disse Julián. “Todos estão em estado de choque.”

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Apesar de não haver pistas dos responsáveis, Obrador e seu ministro da Segurança, Alfonso Durazo, colocaram a culpa nos suspeitos de costume. “É uma zona de disputa entre diversos grupos criminosos”, afirmou Durazo. “O comboio pode ter sido confundido por cartéis.”

A violência logo ganhou a atenção de Donald Trump, que ofereceu ajuda a Obrador. “Agora é hora de o México, com a ajuda dos EUA, realizar uma guerra contra os cartéis e eliminá-los da face da Terra”, tuitou o presidente. “Os cartéis ficaram tão grandes e poderosos que, às vezes, você precisa de um Exército para combater um exército.”

No início, Obrador hesitou – aceitar ajuda de Trump pode ser um suicídio político no México – e disse que agiria “com independência e soberania”. “Acho que não precisamos ter a intervenção de um governo estrangeiro”, disse. Mais tarde, ele amenizou o discurso e conversou com o presidente americano por telefone sobre cooperação na fronteira. 

O presidente mexicano está sob fogo cerrado por ter feito pouco para conter a violência desde que assumiu, em dezembro do ano passado. Durante a campanha, ele lançou a estratégia apelidada “abraços, não balas”. Mas, depois que assumiu, o máximo que fez foi criar uma nova corporação, a Guarda Nacional, que manteve o caráter militar do combate às drogas – tática que carcomeu a popularidade de governos anteriores.

Em outubro, o Exército prendeu Oviedo Guzmán, filho do traficante Joaquín “El Chapo” Guzmán, em Culiacán. Em poucas horas, o cartel de Sinaloa transformou a cidade em praça de guerra – 8 pessoas morreram. Reunido com o gabinete de Segurança Pública, Obrador decidiu soltar Oviedo, alegando querer preservar a segurança da população. “Nunca vamos optar por guerra. O que importa para nós é a vida das pessoas.”

A decisão provocou uma onda de críticas, até do Exército, que sempre se manteve discreto no México. “Nós nos sentimos afrontados, enquanto mexicanos, e ofendidos, como soldados”, disse Carlos Gaytán, general da reserva, sobre a libertação de Oviedo. “Os militares estão realmente incomodados”, afirmou o cientista político Javier Oliva Posada, da Universidade Nacional Autônoma do México. 

Já o massacre de crianças parece ter tirado do sério até seus mais fiéis eleitores. “Para que diabos votamos no senhor?”, questionou o ator Gael García Bernal no Twitter. “Melhor que o governo assuma sua responsabilidade e faça o impossível para que isso não se repita.”

Analistas, no entanto, dizem que algumas causas do aumento da violência no México não têm relação direta com o presidente. A principal delas é a prisão ou morte de chefões do tráfico, como Chapo. A ausência de líderes fragmenta os cartéis e novas facções menores buscam ocupar o vácuo de poder recorrendo a ações violentas.

Outro fator, segundo especialistas, é o crescimento do mercado doméstico de consumidores de drogas, que favorece a expansão de gangues que lutam por território em grandes cidades. Em maio, a ONG Citizen’s Council for Public Security and Criminal Justice colocou cinco cidades mexicanas entre as seis mais violentas do mundo: Tijuana, Acapulco, Ciudad Victoria, Ciudad Juárez e Irapuato – todas com mais de 80 assassinatos para cada 100 mil habitantes. Em Tijuana, a epidemia de homicídios chegou ao ápice, com 138 homicídios a cada 100 mil moradores. / NYT, W. POST, REUTERS e AP

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