Massacre de Haditha revive fantasmas de My Lai

Os americanos estão revivendo um antigo fantasma de sua história bélica. A polêmica gerada em torno do suposto assassinato de civis iraquianos por fuzileiros navais americanos na cidade de Haditha remexe em uma antiga ferida do poderoso Exército dos EUA: o massacre de vietnamitas por soldados americanos na aldeia de My Lai, em 1968.Os dois episódios estão separados por 38 anos, mas seu enredo possui elementos semelhantes: uma guerra longa e esvaziada de significado; um grupo de soldados revoltados pela perda de seus camaradas para um inimigo invisível, e civis inocentes que estavam no lugar errado na hora errada. Em Haditha, o local errado foi uma estrada, onde 24 iraquianos morreram. De acordo com o relatório inicial do Exército americano, o incidente teria ocorrido após uma emboscada contra uma patrulha, com um subseqüente atentado. Porém análises forenses mostraram marcas de balas nos cadáveres, o que contradisse os relatos iniciais e confirmaram a versão de testemunhas locais.Massacre em My LaiO paralelo histórico da atual crise aconteceu na província de Quang Ngai, no Vietnã, onde um dos mais vergonhosos episódios na história do Exército americano tomou corpo. A província era suspeita de abrigar guerrilheiros das Forças Armadas da Libertação Popular e outros braços da Frente Nacional de Libertação do Vietnã (FNLV), cujos membros eram conhecidos como vietcongues. Quang Ngai foi alvo de inúmero bombardeios e, no ano de 1968, a maioria das casas da região já estava destruída. Para o Exército americano, era primordial que os membros da FNLV fosse eliminados. Insurgentes recebiam abrigo de civis da região, e os soldados americanos estavam cada vez mais frustrados com a cumplicidade dos vietnamitas com os rebeldes. Esse sentimento fez com que as incursões contra civis se tornassem cada vez mais comuns. Em janeiro de 1968, o comando do Exército advertiu a 11ª Brigada, conhecida como Companhia Charlie, que vietcongues estariam escondidos na aldeia de My Lai. O comando informou que "civis genuínos" teriam ido para o mercado durante a parte da manhã e aqueles que restassem seriam insurgentes. Os soldados foram instruídos a destruir a aldeia. Os soldados do tenente William Calley não encontraram insurgentes naquela manhã, mas mesmo assim cumpriram a ordem, não só destruindo a aldeia mas massacrando centenas de civis que estavam no local no momento do ataque. Mulheres foram estupradas, idosos e crianças, torturados. Dezenas de pessoas que tentavam se esconder em valas foram executadas sumariamente com metralhadoras e granadas. Durante a incursão, 504 pessoas morreram, com idades entre 1 e 82 anos. Durante o início das investigações sobre o caso, soldados que participaram da ação em My Lai sustentavam que apenas 28 civis morreram durante o ataque, e o Exército afirmava que a ação foi uma vitória militar que resultou na morte de 128 inimigos. Apesar das tentativas de encobrir a verdade, os fatos vieram à tona através do relato de um soldado que participara da ação. Em seguida, a história foi escancarada pelo jornalista Seymour Hersh, que entrevistou o tenente Calley.Dos 26 homens acusados de participar do massacre, apenas Calley foi condenado. Apesar de ser sentenciado à prisão perpétua, ele foi liberado da pena pelo presidente Nixon e cumpriu apenas 3 anos e meio de prisão domiciliar.A história se repete?Em Haditha, as circunstâncias nas quais os civis iraquianos morreram ainda são nebulosas. Soldados do 3º Batalhão da 1ª Divisão da Marinha mantêm sua versão sobre a explosão de uma bomba. Contudo as descobertas do inquérito começam a revelar discrepâncias entre o relatos e as provas.Caso a culpa dos soldados seja confirmada, Haditha pode ter um impacto profundo na situação americana no Iraque. Em primeiro lugar, porque deve minar ainda mais a confiança de civis iraquianos nas forças de segurança estrangeiras. E, em segundo, ao corroer a visão da opinião pública sobre a pertinência da guerra e dos métodos empregados por seus militares. A contagem dos mortos em Haditha não possui a mesma escala que as vítimas da barbárie em My Lai, mas pode ser decisiva para engrossar o coro daqueles que pedem a retirada das tropas estrangeiras no Iraque.O congressista democrata John Murtha, um dos principais críticos da Guerra do Iraque no Capitólio, criticou os incidentes em Haditha, que qualificou diretamente de assassinato. Segundo ele, "não restam dúvidas" de que os militares tentaram encobrir os fatos.O presidente Bush já entendeu que esse episódio não irá passar despercebido pela opinião pública e já manifestou sua preocupação, com a promessa de "punir os culpados".

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