Massacre de manifestantes no Egito leva gabinete civil à renúncia coletiva

Onda de protesto. Nos últimos 3 dias, 33 pessoas morreram e 1,7 mil ficaram feridas em manifestações por todo o país; a uma semana das eleições parlamentares, as primeiras após a queda de Mubarak, ativistas exigem transição total do poder para os civis

CAIRO, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2011 | 03h02

A uma semana das eleições parlamentares - as primeiras desde a queda do ditador Hosni Mubarak, em fevereiro -, o Egito mergulhou em uma nova crise política. Ontem, o gabinete civil de ministros apresentou sua renúncia ao conselho militar que governa o país, cedendo à pressão de manifestantes e colocando em xeque a legitimidade do governo interino.

Nos últimos três dias, segundo a agência Reuters, 33 pessoas morreram e cerca de 1.700 ficaram feridas em confrontos entre a polícia e ativistas, que exigem uma transição imediata e completa do poder, dos militares para os civis. Ontem, foram registrados novos choques entre polícia e manifestantes no Cairo, na cidade mediterrânea de Alexandria e em Suez, no Mar Vermelho.

Na Praça Tahrir, epicentro do levante que derrubou o regime de Mubarak, os policiais usaram cassetetes, gás lacrimogêneo e balas de borracha contra milhares de manifestantes, que responderam com pedras e bombas caseiras.

A nova onda de violência explodiu no sábado, após meses de uma tensão crescente entre os dois lados - ativistas pró-democracia e Exército. As principais manifestações ocorreram no Cairo, em Alexandria, Suez e Aswan. Alguns jornais egípcios já chamam os eventos de a "Segunda Revolução".

Controle. Desta vez, os manifestantes pedem a renúncia imediata do marechal Mohamed Hussein Tantawi, atual ministro da Defesa, que lidera a junta militar, e exigem a formação de um conselho civil. Ontem, eles prometeram que não sairão da Praça Tahrir até que os militares deixem o poder.

Nos últimos dias, a polícia e os soldados do Exército tentaram dominar a praça, mas tiveram de recuar após violentos contra-ataques dos manifestantes. Houve confrontos intensos, principalmente nas ruas laterais que levam ao Ministério do Interior.

Os ativistas se opõem ao papel que os militares querem ter em um eventual governo civil. Entre as propostas para uma nova Constituição, o Exército pretende manter mecanismos para intervir na política egípcia e ficar livre de qualquer controle civil, incluindo do orçamento de defesa.

De acordo com analistas, a frustração com a lentidão da transição é agravada pela estagnação econômica. Os violentos protestos causaram uma fuga de investimentos estrangeiros e afetaram também o setor turísticos, contribuindo para o clima de revolta.

Sami Sidhom, responsável pelo setor de segurança do Ministério do Interior, afirmou ontem que os novos distúrbios não são organizados por ativistas, mas sim por um grupo de pistoleiros conhecido no país como "baltagiya"- os líderes da manifestação, no entanto, negam.

A violência e a renúncia do gabinete agravaram o clima de instabilidade e ninguém sabe quem compõe o Executivo. "O primeiro-ministro Essam Sharaf entregou sua renúncia ao Conselho Supremo das Forças Armadas," confirmou o porta-voz do gabinete, Mohamed Hegazy.

Novo governo. Após o anúncio, a cúpula militar do Egito passou o dia reunida para definir o nome do novo premiê. Fontes militares, segundo a Reuters, disseram que nenhuma decisão seria anunciada até que houvesse consenso a respeito do substituto de Sharaf.

Já na madrugada do Cairo (início da noite no Brasil), a junta militar divulgou um comunicado em que pede "um diálogo urgente" a todas as forças políticas do Egito.

A cúpula do Exército não fez nenhuma alusão à renúncia ou ao substituto do primeiro-ministro, mas pediu "união" para "descobrir as razões da crise e o caminho para o país sair dela". / AP, NYT e REUTERS

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