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Massacre deve lançar campanha de guerrilha e terrorismo no Quênia

Matança no shopping em Nairóbi revela força, em termos de contingente e armamento, do grupo Al-Shabab e traz à tona novos motivos para o lançamento de mais ataques, como a retaliação aos quenianos que ajudaram a abalar suas finanças

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2013 | 02h13

O massacre no Shopping Westgate em Nairóbi deve marcar o início de uma campanha guerrilheira e terrorista do Al-Shabab no Quênia. O grupo islâmico somali detém o contingente - estimado em 8 mil homens - e o arsenal suficientes para sustentar uma longa campanha, segundo especialistas ouvidos pelo Estado. E agora tem também os motivos.

"Há muitos anos o Al-Shabab tem a capacidade de realizar um ataque como esse em Nairóbi", avalia Scott Stewart, vice-presidente de análise da empresa americana da consultoria de riscos Stratfor. "Eles têm as conexões, o efetivo. E foi um ataque muito simples. Não exigiu muita técnica. Só precisaram de fuzis AK-47 e granadas."

Na visão de Stewart, que até 1998 foi agente especial do Serviço de Segurança Diplomática do Departamento de Estado americano, o Al-Shabab não havia lançado um ataque dessa magnitude ainda porque usufruía de rede de financiamento e base logística no Quênia. Essa rede foi desmantelada pelas forças de segurança quenianas, depois que o grupo lançou uma onda de ataques com granadas e bombas de baixa intensidade em 2011 e declarou jihad (guerra santa) contra o Quênia no ano passado, em razão da participação do país na Missão da União Africana na Somália (Amisom). Vários imãs (líderes religiosos) que apoiavam o Al-Shabab foram presos e um, morto.

A ruptura da estrutura do Al-Shabab no Quênia coincidiu com os avanços militares na Somália da Amisom, que em setembro desalojou o grupo do Porto de Kismayu. O controle do porto permitia ao Al-Shabab cobrar taxas de piratas e contrabandistas. As ações da Amisom, que reúne 17 mil soldados, têm causado também pesadas baixas e perda de equipamento ao Al-Shabab. Ironicamente, os avanços da missão têm empurrado os combatentes para países vizinhos que dela participam para estabilizar e apoiar o governo de transição da Somália - incluindo o Quênia, onde há cerca de 500 mil refugiados somalis. O Quênia enviou tropas para a Somália em outubro de 2011, após uma série de sequestros de turistas na fronteira entre os dois países - uma ameaça para essa importante fonte queniana de receita. Seu efetivo de 5 mil homens é o segundo maior da Amisom, depois de Uganda, com 5,7 mil.

Nem sempre foi assim. Desde a formação do Al-Shabab, em 2007, como reação à criação da Amisom, as autoridades quenianas vinham tolerando sua visível atuação no país, aparentemente por considerarem que era um problema apenas para a Somália. Primeiramente, a Arábia Saudita - fonte das doutrinas salafistas professadas por esse e outros grupos radicais - financiou a criação do Centro Islâmico Kisauni, em Mombassa, segunda maior cidade queniana, 400 km a sudeste de Nairóbi. Em 2008, o imã Aboud Rogo, um dos fundadores do Al-Shabab, criava o Centro da Juventude Muçulmana em Nairóbi, instalando-se no establishment muçulmano e apossando-se de mesquitas.

De acordo com Alexander Melegrou-Hitchens, pesquisador do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização, do Kings College, em Londres, o Al-Shabab recrutou cerca de 500 militantes no Quênia, oferecendo-lhes salário mensal equivalente a US$ 500, quatro vezes o salário médio no país. O recrutamento foi facilitado por desemprego da ordem de 40%, que chega a 90% entre os jovens de Garissa, reduto islâmico no nordeste, na fronteira com a Somália.

De acordo com um economista somali que trabalha em Nairóbi e pediu para não ser identificado, a pobreza e a falta de oportunidades atingem mais duramente a minoria muçulmana do Quênia, que representa 11% da população, do que a maioria cristã (82%). Ele disse que há discriminação contra os muçulmanos quenianos e contra os somalis e as tensões entre eles e os cristãos devem crescer após o ataque do dia 21.

Mesmo assim, Melegrou-Hitchens, que entrevistou seis ex-combatentes quenianos do Al-Shabab, relata que muitos de seus militantes não concordavam com as atrocidades cometidas pelo grupo em comunidades muçulmanas na Somália e presenciaram execuções de colegas que se recusaram a massacrar ou estuprar civis.

Por outro lado, o economista, que foi assessor de um ex-presidente somali, reconhece: "Infelizmente, a ideologia política do Al-Shabab ainda tem algum apelo e apoio significativo entre segmentos da sociedade somali. Eles estão militarmente enfraquecidos, mas ainda não derrotados".

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