Drew Angerer/Getty Images/AFP
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Massacre em Orlando abalou comunidade latina

Maior parte das vítimas de Orlando era de porto-riquenhos, cuja migração para a Flórida foi acentuada pela crise econômica no território

Cláudia Trevisan ENVIADA ESPECIAL / ORLANDO, EUA, O Estado de S. Paulo

19 Junho 2016 | 05h00

Como muitos dos que morreram no maior ataque a tiros da história dos EUA, os namorados Luis Daniel Wilson-Leon e Juan Carlos Mendez Perez tinham sua origem em Porto Rico e estavam no clube Pulse atraídos pela noite latina de salsa e merengue.

Os dois foram velados juntos na sexta-feira em Kissimmee, o subúrbio de Orlando em que vive a maioria dos imigrantes que trocaram o território americano pela Flórida. Mas ontem o corpo de Wilson-Leon foi levado de volta a Porto Rico, enquanto o de Mendez Perez foi enterrado nos EUA, para onde seus pais se mudaram quando ele era adolescente.

O número de porto-riquenhos que vivem na Flórida mais que duplicou desde o início da década, para 1 milhão de pessoas. Só na região de Orlando-Kissimme são 400 mil, quase 30% da população local. 

A migração foi acentuada pela crise econômica em que o território está mergulhado, com recessão e endividamento insustentável. Os moradores do território são cidadãos americanos e não precisam de visto para entrar e viver nos EUA. 

É difícil encontrar um porto-riquenho em Orlando ou Kissimmee que não tenha sido atingido de maneira direta ou indireta pelo massacre, no qual 49 pessoas morreram e 53 ficaram feridas. 

Na sexta-feira, o casal Carlos e Lourdes Marin estava entre os visitantes do memorial improvisado no centro de Orlando para homenagear as vítimas. No caso deles, havia uma em especial – Rodolfo Ayala-Ayala – com quem Lourdes trabalhou. “Você nunca sabe como vai se sentir quando uma coisa dessas acontecer, mas eu vejo que sou parte deles e eles, de mim”, disse Marin, com lágrimas nos olhos. Aposentado, ele saiu de Porto Rico há 35 anos.

Antonio Vidal, que vive em Orlando há duas décadas, conhecia uma pessoa que morreu e outra que foi ferida. Além disso, quatro pessoas de sua família tinham algum tipo de relação com vítimas do massacre.

Dono de uma funerária voltada à população latina de Kissimmee, Bob Haley disse que começou a receber telefonemas de parentes das vítimas na segunda-feira. Muitos deles se mostravam apreensivos com o custo do funeral, que chega a US$ 9 mil no caso de enterro e a US$ 4 mil se o corpo for cremado.

Haley disse que não cobraria nada das famílias. “A comunidade pagará essa despesa”, afirmou. Desde o massacre, 108 mil pessoas fizeram doações por meio de um site destinado a levantar recursos para apoiar as vítimas e seus parentes. Até sexta-feira, haviam sido arrecadados US$ 5,34 milhões (R$ 18 milhões).

Principal atração de Orlando, a Disney fez uma doação de US$ 1 milhão, mesmo valor anunciado pela Universal. A companhia aérea JetBlue decidiu não cobrar passagens de parentes das vítimas, enquanto a American Airlines se ofereceu para transportar os corpos até Porto Rico. 

Com quatro décadas de experiência em serviços funerários, Haley cuidou de vítimas de outras tragédias, entre as quais acidentes aéreos e furacões. Mas ele disse nunca ter visto algo que atingisse de maneira tão intensa uma única comunidade. 

Em sua opinião, o impacto foi agravado pelo fato de que a idade média dos mortos era de 29 anos. “É muito diferente planejar um funeral para um adulto que teve uma vida longa e plena e para um jovem com energia morto no meio de sua vida.”

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