Massacre em polo petrolífero antecede chegada de missão do Brasil à Síria

Pelo menos 42 pessoas morreram em Deir al-Zor, no Leste; enviado brasileiro deve chegar hoje a Damasco

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / GENEBRA - Na véspera da chegada de uma missão enviada por Brasil, África do Sul e Índia a Damasco para colocar fim ao choque entre opositores e o governo de Bashar Assad, tropas e tanques sírios abriram fogo para sufocar um foco de protestos surgido na cidade de Deir al-Zor, de 500 mil habitantes, no leste do país. Pelo menos 42 pessoas morreram e centenas fugiram, segundo moradores da região, uma das maiores produtoras de petróleo e gás do país.

 

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O ataque a Deir al-Zor, a quinta maior cidade do país, ocorreu exatamente uma semana depois da investida contra Hama, também uma importante região petrolífera síria. Os moradores de Deir al-Zor promoveram nos últimos dias grandes manifestações contra o governo, mas o Exército, ciente da existência de tribos armadas na cidade, até então havia se limitado a cercá-la. Um viajante disse ter visto pelo menos 150 tanques e 200 camionetes adaptadas com armas em volta da cidade.

A ofensiva do governo chegou ao centro da cidade ontem o entardecer, quando tanques ocuparam a Praça Assad - rebatizada pelos opositores Praça dos Mártires. Moradores dizem que há racionamento de combustível e pão. Hospitais privados foram fechados e os feridos evitariam os públicos por medo de serem presos pelo governo. "Nunca testemunhamos um dia como esse", disse por telefone um morador da cidade chamado Maamoun.

Além de bem armados com AK-47, os clãs de Deir al-Zor mantêm historicamente certa independência do governo central e relações com tribos dos oeste iraquiano. Os moradores da região, assim como os de Hama, consideram que a distribuição pelo governo dos benefícios vindos da exportação de petróleo não é correta. A tensão na cidade aumentou no mês passado, com a prisão pelas forças de Assad do xeique Nawaf al-Bashir, um líder influente na cidade. O ataque do governo indica que as negociações entre o clã e o governo para sua libertação não deram certo.

Durante as últimas semanas, ativistas sírios previram que com o início do Ramadã, quando os muçulmanos fazem jejum durante o dia, a mobilização dos dissidentes seria maior, em reuniões à noite. O que tem se visto há uma semana é um aumento da repressão desde que este período de 30 dias começou.

Emergentes. O subsecretário do Ministério de Relações Exteriores, Paulo Cordeiro de Andrade Pinto, deve chegar hoje à capital síria e aguardar os representantes de África do Sul e Índia. Fontes do Itamaraty informaram o Estado ontem que os esforços do grupo estão concentrados em permitir que a reunião em Damasco ocorra na quarta-feira. O lado sírio ainda não confirmou a data. A mensagem ao governo de Assad é de que a violência precisa parar e haverá cobrança por reformas políticas reais. O grupo também dará sinais de que não defende o isolamento da Síria, nem a adoção de sanções. Com isso, espera manter os canais de comunicação abertos com Damasco.

Apesar de condenar a violência, o governo brasileiro acredita que parte do tumulto tem ocorrido também por causa do envolvimento estrangeiro na crise. Segundo diplomatas brasileiros, as cidades mais afetadas pela violência têm sido aquelas na fronteira da Síria com outros países, o que seria um sinal de que armas estariam sendo fornecidas. O Itamaraty não diz de onde suspeita que venham as armas.

Grupos de ativistas de direitos humanos pedem ainda que os três países emergentes usem a missão para condenar a violência dos últimos dias. / COM NYTC

PARA LEMBRAR

Irã envia armas para sírios

O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Ahmet Davutoglu, confirmou na semana passada que autoridades turcas interceptaram um carregamento de armas do Irã que seguia para a Síria. O jornal alemão Sueddeutsche Zeitung já havia publicado que a Turquia tinha impedido que armas do Irã fossem entregues a extremistas do grupo libanês Hezbollah em território sírio. O incidente, agora confirmado, ocorreu há três meses.

De acordo com o jornal alemão, o caminhão com munição e armas foi apreendido no dia 30 de abril na fronteira entre Turquia e Síria. Em março, Ancara já havia comunicado a um painel do Conselho de Segurança da ONU que tinha interceptado um avião iraniano com fuzis automáticos, lançadores de foguetes e granadas.

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