Massacre no Afeganistão chama atenção para pressões da guerra

Estudos relativos ao tema são ambíguos, mas indicam que repetidas ações em combate prejudicam os militares

ELIZABETH BUMILLER , JOHN H. CUSHMAN , WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2012 | 03h04

O sargento Robert Bales, suspeito de matar 16 civis no Afeganistão, na semana passada, foi enviado quatro vezes para o Iraque e o Afeganistão em uma década, um recorde em termos de viagens de combate que, no mínimo, denota um violento estresse. Ele ficou especialmente abalado quando foi enviado para o Afeganistão, sua mulher escreveu em seu blog no ano passado, pois a família, em vez isso, tinha esperanças de que ele fosse destacado para servir na Alemanha, na Itália ou no Havaí.

Mas oficiais do Exército disseram que as viagens do sargento não eram excepcionais numa força que tem se submetido a um ritmo sem precedentes de mobilizações repetidas em duas guerras opressivas. "Muitos soldados foram destacados quatro vezes e não são acusados de coisas como esta", disse o coronel Thomas W. Collins, porta-voz das Forças Armadas.

Nas próximas semanas, deve começar um debate quanto a se as quatro vezes que o soldado foi enviado para o combate contribuíram para que, segundo as acusações, ele fosse de porta em porta atirar ou apunhalar cidadãos afegãos, a maioria crianças e mulheres, no distrito de Panjwai, na Província de Kandahar, no sul do Afeganistão. O argumento pode muito bem ser oferecido numa corte marcial, se o seu caso for a julgamento.

Até agora, contudo, o perfil de Bales - incluindo um histórico de ferimentos de guerra, pressões financeiras, frustração por não ter sido promovido, escaramuças com policiais, uma mulher que estava grávida e anos longe dos filhos - é semelhante ao de muitos outros militares americanos. Oficiais vêm se manifestando com veemência sobre como essas pressões estão afetando o moral e a saúde mental das tropas. Pesquisas e estudos oficiais têm sido realizados para descobrir as relações entre as repetidas prestações de serviço de um soldado e uma série de problemas.

Desde o 11 de Setembro, mais de 107.000 soldados, dos 570.000 que formam o Exército, foram destacados para prestar serviço três ou quatro vezes, disseram oficiais. Mas ser mobilizado seis ou sete vezes não é tão raro, especialmente no caso de membros de forças de elite, que fazem turnos mais curtos. Bales prestou serviços durante um ano inteiro, embora sua estada em Panjwai estivesse prevista para durar apenas nove meses.

Estudos recentes feitos pelo Exército sobre o tema chegaram a conclusões ambíguas. Uma análise elaborada em 2011 pelo Armed Forces Health Surveillance Center concluiu que alguns problemas, como abuso de álcool ou problemas mentais, eram mais comuns quando o soldado era destacado apenas uma vez do que quando de turnos repetidos. E sugeriu que algumas pessoas eram afastadas do Exército após a primeira mobilização, deixando um grupo mais robusto prosseguir na luta.

Mas um outro levantamento, do ano passado, que investigou o moral dos combatentes no Afeganistão, ligou a perda de ânimo dos soldados e problemas mentais crescentes às repetidas mobilizações. O estudo, que teve como base entrevistas com mais de 1.200 militares, concluiu que, em razão das idas repetidas para frentes de combate, os soldados ficam mais propensos vivenciar fatos traumáticos em combate e sofrer em virtude disso. / NYT, TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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