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Alessandro Cinque/REUTERS
Alessandro Cinque/REUTERS

Massacre no Peru faz reviver trauma da violência maoísta antes da eleição polarizada

O massacre, que ocorre semanas antes das eleições presidenciais, é uma das piores atrocidades no Peru em décadas

Anatoly Kurmanaev e Mitra Taj, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2021 | 17h48

Dezesseis homens, mulheres e crianças morreram em um massacre em uma região remota de cultivo de coca no Peru, disse o Ministério da Defesa, trazendo de volta as memórias da brutal insurgência de esquerda do país semanas antes das eleições presidenciais que se desenrolam em paralelo às rupturas ideológicas do conflito.

Os assassinatos, uma das piores atrocidades do Peru em décadas, ocorreram na cidade de San Miguel del Ene, disse o ministério em um comunicado na segunda-feira. O chefe da polícia do país informou que policiais estavam a caminho da cidade isolada para realizar investigações.

As autoridades atribuíram o ataque a uma facção dissidente do Sendero Luminoso, um grupo rebelde maoísta que aterrorizou o Peru antes de ser brutalmente reprimido pelo líder autoritário Alberto Fujimori na década de 1990. A imprensa local noticiou que panfletos atribuídos ao grupo terrorista foram encontrados junto aos corpos das vítimas.

“Estamos voltando a algo que pensávamos ter superado”, disse Pedro Yaranga, um consultor de segurança peruano, que disse ter obtido cópias e verificado os panfletos do Sendero Luminoso deixados na cena do crime. “A maioria no Peru acha que o Sendero Luminoso não existe mais. Essa tragédia mostra que isso não é verdade. ”

Acredita-se que a região montanhosa ao redor de San Miguel del Ene, uma área de floresta escassamente povoada no centro do Peru conhecida pela produção e tráfico de cocaína, seja a última área relevante de operação para os remanescentes do Sendero Luminoso.

O massacre abala o cenário político do Peru apenas duas semanas antes da eleição presidencial altamente carregada do país, que colocou Keiko Fujimori, a filha do agora preso Alberto Fujimori, contra Pedro Castillo, professor e líder sindicalista de esquerda.

Castillo condenou publicamente o ataque. “Condeno abertamente, como homem do campo, como professor, a atitude covarde de algumas pessoas”, disse durante um comício realizado em Huánuco. O candidato destacou o cenário político em que ocorreu o ataque subversivo, instando a polícia a realizar investigações imediatamente e localizar os responsáveis. Apesar disso, apoiadores de Fujimori procuraram durante a campanha ligar Castillo a grupos rebeldes simpáticos ao Sendero Luminoso. 

Fujimori também lamentou a violência. Na segunda-feira, pediu que os peruanos não deixem de ir às urnas no dia 6 de junho para defender o país das forças desestabilizadoras. 

“Hoje mais do que nunca devemos defender nossa pátria e ir com muita serenidade no dia 6 de junho votar”, disse depois de participar de um evento na Amazônia brasileira. “O que o terrorismo busca é deter o processo eleitoral”.

Keiko aproveitou para rejeitar insinuações de pessoas que, segundo ela, estão tentando aproveitar politicamente o ataque terrorista e vinculá-lo a um golpe de sua campanha.

Os panfletos supostamente encontrados com as vítimas do massacre convocavam os residentes a boicotar a eleição e chamavam os apoiadores de Keiko de traidores.

Pessoas de ambos os lados têm tentado descrever as eleições como a repetição das batalhas ideológicas da turbulenta década de 1990, quando as políticas de linha dura de Fujimori trouxeram a paz nacional à custa da repressão da democracia e dos direitos civis.

As últimas pesquisas mostram que Castillo ainda está à frente na disputa, embora sua liderança tenha diminuído nas últimas semanas, deixando Keiko Fujimori a uma curta distância da vitória na maioria das pesquisas no país.

Yaranga disse que o país pode ver um aumento na violência se Keiko vencer a disputa. Os integrantes remanescentes do Sendero Luminoso poderiam intensificar os ataques punitivos contra a filha de seu inimigo, disse ele, e Keiko poderia intensificar as operações antiterroristas.

O trauma da guerra do Sendero Luminoso contra o Estado peruano ainda tem cicatrizes no país andino mesmo décadas depois.

Iniciada em 1980 por um acadêmico maoísta, Abimael Guzmán, a insurgência gerou um conflito interno que custou a vida de cerca de 69.000 pessoas. As atrocidades cometidas chocaram até mesmo uma região familiarizada com as revoltas marxistas e a opressão do Estado.

Guzmán ordenou que seus apoiadores baixassem as armas após sua captura em 1992, mas os rebeldes remanescentes permaneceram em áreas florestais remotas, onde sua ideologia revolucionária foi gradualmente substituída pelo tráfico de drogas e ataques ocasionais às forças de segurança. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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