Mario Tama/Getty Images/AFP
Mario Tama/Getty Images/AFP

Massacre no Texas choca vizinhos mexicanos acostumados à violência

Citada como uma das mais perigosas do mundo, Ciudad Juárez está de luto pela violência do outro lado da fronteira, após um atirador matar 22 pessoas, entre elas 6 mexicanas, em um ataque na sua cidade-irmã, El Paso

Verónica Calderón,  ESPECIAL PARA O ESTADO / CIUDAD JUÁREZ, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2019 | 05h00

É habitual que Ciudad Juárez chore. A cidade mexicana, frequentemente citada como uma das mais perigosas do mundo, está acostumada a chorar. Somente em janeiro mataram 49 pessoas. Desde o início do ano, assassinaram mais de 500. E isso são dados oficiais.

Juárez sempre foi o espelho de El Paso, Texas, sua cidade gêmea, da qual está separada apenas por controles migratórios. E uma vala que em 2016 o presidente Donald Trump prometeu transformar em muro. El Paso era uma das cidades mais seguras no território americano: registrou somente 18 assassinatos em 2018.

Pode parecer estranho, mas duas cidades tão extremamente distintas formaram uma comunidade. Diferente, bilíngue, binacional. Longe de Washington e da Cidade do México. Os americanos, os “gringos”, entram no México para comprar seus remédios porque sai mais barato. Os mexicanos fazem a compra no supermercado americano nos fins de semana. Talvez o paradoxo perfeito para a fronteira que registra o maior tráfico de humanos e comércio do mundo, a americana e a mexicana, seguida apenas pela que divide a Colômbia e a Venezuela.

Juárez e El Paso somam quase 3 milhões de habitantes. Desse total, 82% é de origem hispânica. Os moradores da fronteira consideram que têm uma identidade própria: “os mexicanos não nos consideram tão mexicanos e para os gringos não somos tão gringos”. Por isso o ataque a tiros cometido no sábado fraturou a cidade e a submergiu em algo que vai mais além do ódio e o ressentimento que apregoam os políticos nas capitais: o luto.

Sara Cerros, de aproximadamente 40 anos, é a filha de Sara Esther Regalado e Adolfo Cerros, um casal que no sábado foi ao Wall-Mart mais próximo da fronteira, La Línea, para fazer compras. “Por favor, deem-me tempo para assimilar o que aconteceu”, disse ao compartilhar a foto de seus pais, que também colocou no Facebook. Agradece a solidariedade, mas diz que ainda está oprimida e em choque. Ela e suas irmãs foram informadas da morte de seus pais quase 24 horas após o ocorrido.

Faz 38 graus à sombra, isto é o deserto. La Línea acabou como uma piada na comunidade mexicana, pois não apenas significa a fronteira, mas também o fato de que Ciudad Juárez é o principal ponto de passagem de cocaína entre o México e os EUA há pelo menos 20 anos, segundo a DEA, a agência antidrogas dos EUA.

O humor negro dos moradores de Juárez é difícil de explicar. Uma repórter do El Diario de Juárez, um jornal que sofreu o assassinato de dois jornalistas no México, o país mais perigoso da América para o exercício do jornalismo, brinca que não sai de sua casa sem ao menos um picador de gelo para se defender. Conta também que pela noite vai aos bares em El Paso e volta a sua casa em Juárez, como fazem todos os dias centenas de milhares de pessoas.

“Gosto muito de estar na fronteira”, cantava Juan Gabriel, um artista mexicano que, como muitos em Juárez, veio do sulista Estado de Michoacán para tentar a vida. “Por que aqui as pessoas são mais lindas e sinceras.” Juárez e El Paso, que parecem tão diferentes na imagem, no fim compartilham o sonho de suportar o calor do deserto, longe de suas capitais, para trabalhar. “Muitos fizeram fortuna aqui. Por isso escolhi este lugar”, disse a congressista Verónica Escobar, do Partido Democrata, à CNN.

O pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, Beto O’Rourke, um orgulhoso morador da fronteira, fez menos rodeios. “Donald Trump é um racista. Nossa comunidade celebra a diversidade e o presidente promove o racismo e o ódio”, disse a jornalistas durante a vigília realizada no domingo à noite, horas após o massacre.

“Será que tenho de explicar novamente?”, disse O’Rourke. “O presidente dos EUA disse desde o primeiro momento que os mexicanos são estupradores, narcotraficantes e criminosos ao lançar sua campanha presidencial”, exclamou, indignado. Ele também estava na noite em que Juárez e El Paso se tornaram uma.

Velas, mariachis, inglês, espanhol. Alguém cantou Amazing Grace, um hino de luto para os que falam inglês, e os mariachis cantaram Amor Eterno, de Juan Gabriel, a canção que esse artista, que como tantos outros mexicanos chegaram à fronteira para tentar a vida, dedicou a sua mãe quando ela morreu. “Como eu queria / que tu vivesses / que teus olhinhos jamais tivessem se fechado / e estar olhando-nos”. 

Assim, no Parque Ponder, em El Paso, mexicanos e americanos se tornaram um. A cidade mais perigosa e a mais segura. Até que Patrick Crusius, um jovem de aproximadamente 20 anos, decidiu dirigir mais de 9 horas desde Dallas para atacá-la justo em seu coração. Em um Wall-Mart e em um sábado. Em seu manifesto, divulgado no site 8chan, anunciou o que faria para proteger seu “amado Texas” de uma “invasão hispânica”. E para isso escolheu um lugar chamado El Paso.

O’Rourke disse no domingo: “Confundem nossa amabilidade com debilidade e isso não é assim”. O ataque a tiros em El Paso, que ocorreu horas antes do massacre em Dayton (Ohio), não é um a mais. A ferida que Trump abriu no dia que chamou os imigrantes de “estupradores, criminosos e narcotraficantes” deu resultados. Agora a ferida está sangrando. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.