AP Photo/Carolyn Kaster
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Massacres são a parte mais visível do legado de violência dos EUA

Para analista, atiradores querem passar a mensagem de que qualquer pessoa corre o risco de ser atingida

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

14 Setembro 2015 | 02h00

Os EUA têm um histórico marcante de assassinatos em massa. Apesar de os crimes envolvendo membros da mesma família terem maior incidência (53% dos casos ocorridos entre 2007 e 2015), segundo dados do FBI, são tragédias como o massacre de Columbine, em 1999, o de Virginia Tech, em 2007 e o de Charleston, em junho, que ganham maior destaque.

Mesmo com esses dados, a sensação é a de que as chacinas, planejadas cuidadosamente ou não pelos atiradores, são cada vez mais recorrentes. Um estudo do FBI mostra que, de 2000 a 2013, houve 160 incidentes nos quais morreram 486 pessoas e 557 ficaram feridas. Desses, 40% foram assassinatos com armas de fogo.

Para o diretor e pesquisador do Departamento de Correções de Minnesota, Grant Duwe, “desde seus primeiros dias de república, os EUA têm sido um país violento” e essas chacinas “são a parte mais visível desse legado”. Autor do livro Mass Muder in the United States: a History, ele afirma que, apesar da sensação, o número de assassinatos diminuiu “gradualmente” nos últimos anos. 

“Os tiroteios têm um denominador comum: o acesso fácil às armas de fogo”, explica Eugenio Weigend, analista de políticas para armas e crimes do Center for American Progress. Ele diz que os EUA são o país com a “mais alta taxa de posse de armas, quase uma por habitante, e de produção de armamentos”. Weigend explica que os americanos conseguem adquirir armas sem enfrentar muitas restrições. “Aproximadamente 40% das transações acontecem sem questionamentos”, segundo ele.

Para tentar reduzir o número de assassinatos em massa, seria necessário restringir o acesso a essas ferramentas. “Um passo crucial é adotar o processo de checagem de históricos em todas as transações de armas”, afirma Weigend. Ele explica que a partir do sistema é possível determinar se um comprador em potencial está apto ou não a ter uma arma de fogo. 

O analista destaca que o método já é aplicado em alguns Estados, mas apenas em lojas de armas cujos vendedores possuem uma licença federal que permite o comércio. Em vendas privadas, como as realizadas pela internet, isso não ocorre. 

Ainda assim, alguns especialistas acreditam que a questão é mais complicada do que parece. Segundo Arvind Verma, professor do Departamento de Justiça Criminal da Universidade de Indiana, há um artigo na Constituição americana que garante o porte de armas como direito do cidadão. Neste caso, o governo não poderia limitar o uso. 

“A Austrália tentou limitar (o porte de armas) e conseguiu ser bem-sucedida na redução da violência. Mas isso não aconteceria tão facilmente nos EUA. O lobby de armas no país é muito forte”, disse Verma.

Em entrevista à rede britânica BBC, o presidente dos EUA Barack Obama admitiu que a maior frustração de seu mandato é o fracasso em aprovar uma legislação de controle de armamentos. 

Motivos. Verma afirma que muitos assassinatos em massa são “resultado de uma infância perturbada”. O analista Grant Duwe concorda e diz que, entre os assassinatos ocorridos nos últimos 100 anos, em 60% dos casos os atiradores foram diagnosticados com algum distúrbio mental.

Quanto à escolha das vítimas e dos locais para cometer o crime, os atiradores geralmente não escolhem aleatoriamente. “Eles matam as vítimas que simbolicamente representam o tipo de pessoa que eles culpam por seus problemas pessoais”, afirma o professor de justiça criminal da Universidade do Alabama, Adam Lankford.

Ele explica que o desejo pela fama é uma das explicações para o crime. “Muitos atiradores percebem que podem ficar famosos ao matar pessoas inocentes. Além disso, a ação expressa a mensagem de que qualquer um pode ser atingido nesse tipo de crime. E, quando a população fica assustada, ela presta mais atenção”.

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