Massacres voltam à Síria e Liga Árabe pressiona ONU a 'rever' sua política

Crise. Oposição acusa regime Assad de ter assassinado 70 civis em Hama, reduto opositor, enquanto TV estatal afirma que 16 morreram em explosão de bomba que rebeldes preparavam; número de observadores das Nações Unidas deve chegar a 300 até dia 12

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2012 | 03h06

O frágil cessar-fogo de menos de três semanas na Síria sofreu ontem seu mais duro abalo com a morte de dezenas de civis em Hama. Em meio ao aumento da violência, a Liga Árabe anunciou que pedirá ao Conselho de Segurança da ONU que reveja sua política sobre a Síria se o governo não honrar a trégua. Nos últimos dias, líderes de EUA e França defenderam uma ofensiva diplomática para permitir uma intervenção militar no país.

O grupo de países árabes pretende usar o Marrocos, seu representante entre os 15 membros do órgão da ONU, para levar sua demanda à reunião do CS no dia 5. É provável que qualquer iniciativa de aprovar uma intervenção estrangeira seja barrada por China e Rússia. Para os países árabes, Assad está negociando enquanto "mata seu próprio povo".

Há duas versões para as mortes de ontem em Hama. A oposição acusa Damasco de ter "massacrado" 70 moradores de um bairro pobre ao abrir fogo indiscriminadamente. A imprensa estatal síria fala que uma bomba explodiu enquanto estava sendo montada por "terroristas", matando 16. O episódio deu força às vozes céticas em relação aos esforços para encontrar uma solução política para a crise na Síria, que em 13 meses teria deixado quase 10 mil mortos. O cessar-fogo é o primeiro dos seis pontos que constam no plano de Kofi Annan, emissário da Liga Árabe e da ONU.

Mesmo com a presença na Síria do primeiro time de observadores das Nações Unidas, agora com 15 integrantes, violações à trégua têm sido registradas. Ontem, um voluntário do Crescente Vermelho (versão islâmica da Cruz Vermelha) foi morto a tiros dentro de uma ambulância em Douma, subúrbio de Damasco. A oposição acusa forças do regime de deliberadamente impedir ambulâncias de retirar feridos de regiões de protestos. Segundo o governo Assad, o voluntário foi morto por "terroristas" - nome que o regime usa para designar todos os opositores, armados ou desarmados.

Os observadores da ONU estiveram ontem no local da tragédia em Hama, afirmou o porta-voz de Annan, Ahmad Fawzi. Ele não revelou a que conclusões chegaram os funcionários após a visita. Imagens de vídeos postadas no YouTube mostram uma densa fumaça branca e amarela saindo do bairro atingido. Outros vídeos exibem supostos moradores buscando pertences entre os escombros e o corpo ensanguentado de uma garota.

Reforço. Espera-se que o contingente de observadores das Nações Unidas chegue a 300 nas próximas semanas. Fontes da ONU afirmaram à agência Reuters que o plano é enviar todo reforço até o dia 12 - um mês após o início do cessar-fogo.

A Síria supostamente está impondo restrições à escolha dos observadores, o que atrasaria o processo. Damasco não quer que, entre os funcionários militares e civis a caminho, estejam cidadãos de países que integram o grupo Amigos da Síria, que dá forte apoio à oposição a Assad. O porta-voz da chancelaria russa, Alexander Lukashevich, acusou a oposição síria de usar "táticas terroristas". Moscou é o principal aliado de Assad no Conselho de Segurança da ONU. "Muitos governos estão ajudando a oposição síria com armas e dinheiro. Isso deixa uma solução política muito mais difícil de ser alcançada."

A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, condenou o governo Assad por supostamente manter os ataques a civis em Hama. / REUTERS

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